Em entrevista à imprensa a respeito do relatório de política monetária, o líder do Banco Central (BC), Rafael Romano, afirmou repetidamente que ‘não existem portas fechadas nem direções indicadas’ para os próximos encontros do Comitê de Política Monetária (Copom).
Romano salientou que o Banco Central tem ‘justamente tentado expressar isso’ em seus comunicados mais recentes – de que não há decisão previamente definida sobre a reunião do Copom em janeiro e tampouco sobre as futuras decisões de política monetária.
O líder da instituição enfatizou que o comitê tem optado por ‘aguardar a situação’ com mais informações em mãos em vez de antecipar algo previamente.
“A facilidade que temos em não dar nenhuma pista não se deve a estarmos sendo astutos em esconder algo, mas na realidade por não termos motivos para fornecer uma pista”, declarou.
“Era mais favorável não tomar essa decisão agora, ganhar esse tempo e poder tomar tal decisão somente em janeiro. É assim que essa questão deve ser interpretada”, acrescentou.
Romano frisou que o BC tem ‘minado expectativas’ de certas palavras nos comunicados e, consequentemente, as projeções se transformaram em um ‘indicador maior’. Apesar disso, destacou que o Comitê continua cauteloso e aguardando mais informações para decidir e indicar medidas.
Dentre os dados, mencionou os indicadores de mercado de trabalho, os quais considera ‘ainda desafiadores de interpretar’, tanto no nacional quanto no global.
O Diretor de Política Econômica do Banco Central, Eduardo Gouveia, salientou que o cenário externo permanece incerto devido à política econômica dos EUA.
“Na Ata [do Copom] discutimos precisamente isso, que o panorama externo estava menos incerto do que alguns meses atrás, em decorrência de tarifas e paralisações. É incerto, mas menos instável do que antes, daí a necessidade de precaução por parte das economias emergentes.”
Gouveia também endossou a observação acerca do mercado de trabalho, destacando que é um momento em que é ‘muito complicado compreender qual é o quadro atual do mercado de trabalho dos EUA’ devido à paralisação, com uma análise mais complexa tanto para o nível de emprego quanto para a inflação.
BC vê inflação ainda acima de 3% e aprimora projeção de PIB
No Relatório de Política Monetária (RPM) do último trimestre de 2025, documento que apresenta a análise da autoridade monetária sobre a economia brasileira e o panorama internacional, o BC destaca sua visão de continuidade da contenção da atividade econômica no Brasil, inflação ainda acima do objetivo de 3% e a necessidade de manter a política monetária restritiva para garantir a convergência dos preços ao longo do horizonte relevante – atualmente focado no segundo trimestre de 2027.
No Brasil, os últimos dados confirmam a desaceleração do crescimento. O Produto Interno Bruto avançou 0,1% no terceiro trimestre de 2025, após crescimento de 0,3% no trimestre anterior.
O BC avalia que esse movimento está de acordo com o esperado e reflete, principalmente, a desaceleração do consumo das famílias, que permaneceu praticamente estável no período. Os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo, aumentaram, influenciados por fatores pontuais, como a importação de plataformas de petróleo.
Para o quarto trimestre, os indicadores disponíveis indicam a continuação dessa desaceleração. Os dados industriais, varejistas, de serviços e de circulação de veículos demonstram variações pequenas, sem sinal de uma retomada mais ampla.
Mesmo assim, o BC elevou a projeção de crescimento do PIB em 2025, de 2,0% para 2,3%, influenciado por revisões estatísticas e pelo desempenho do setor agropecuário e da indústria extrativa. Para 2026, a expectativa é de crescimento de 1,6%, refletindo taxas de juros elevadas, menor impulso do setor agropecuário e desaceleração global.
O mercado de trabalho permanece como um ponto de atenção. Apesar dos sinais de desaceleração na ocupação, a taxa de desemprego continua próxima dos menores patamares da série histórica. A criação de empregos formais continua acontecendo, porém em ritmo mais lento, e os salários reais continuam aumentando. Esse cenário contribui para sustentar a demanda interna e ajuda a explicar a persistência da inflação nos serviços, tema recorrente no relatório.
No mercado de crédito, os dados indicam um arrefecimento gradual, em consonância com os efeitos esperados da política monetária. Os empréstimos para pessoas físicas estão desacelerando, enquanto o crédito concedido às empresas supera as expectativas. Ainda assim, o BC prevê desaceleração do crédito tanto em 2025 quanto em 2026, se comparado a 2024.
Na esfera fiscal, a percepção dos agentes permanece inalterada desde o último relatório. As projeções da dívida pública apontam para um aumento no médio prazo, o que mantém essa questão sob o radar da política monetária. Quanto às contas externas, o déficit em transações correntes aumentou em 2025, puxado pelas importações, apesar das exportações em níveis elevados. Para 2026, a expectativa é de redução desse déficit, com melhora na balança comercial.
O índice de preços ao consumidor mostrou recente desaceleração, tanto no acumulado em 12 meses quanto nas métricas trimestrais, mas permanece acima da meta. Em novembro, o IPCA acumulado em 12 meses ficou em 4,46%, dentro da faixa de tolerância, após meses acima do limite superior. As expectativas de inflação para 2025 e 2026 recuaram, porém continuam acima de 3%. No cenário-base do BC, a inflação converge para 3,2% em 2027, patamar compatível com o cumprimento da meta contínua.
O relatório reitera que a política monetária continuará orientada pelo compromisso com a meta de inflação. O conjunto de riscos inclui, de um lado, a possibilidade de uma persistência maior na inflação dos serviços e do descolamento das expectativas. Por outro lado, uma desaceleração mais intensa na atividade doméstica ou global pode aliviar as pressões inflacionárias. Diante desse cenário, o BC indica que suas decisões continuarão sendo tomadas com base nos dados disponíveis, com foco na garantia da convergência da inflação no horizonte pertinente.
No cenário internacional, o relatório descreve um ambiente caracterizado pela incerteza, especialmente nos Estados Unidos. A inflação nos EUA tem demonstrado resistência, influenciada por tarifas sobre importações, o que levou o Federal Reserve a adotar uma postura data-dependent, mesmo após os cortes recentes nas taxas de juros.
O BC destaca que, nas economias desenvolvidas, a convergência da inflação para a meta foi adiada em vários casos, enquanto nos países emergentes a dinâmica dos preços segue sendo diversa. Esse cenário requer cautela, sobretudo para economias como a brasileira, mais sensíveis às condições financeiras globais.
A atividade global continua crescendo, porém em ritmo mais lento. Persistem os riscos de uma desaceleração mais acentuada, mesmo que os temores de uma recessão global tenham diminuído. Paralelamente, políticas fiscais mais expansionistas em alguns países e a flexibilização monetária gradual ajudam a sustentar o nível de atividade, compensando parte do efeito da incerteza geopolítica e comercial.
*Artigo original publicado em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir
Fonte: Bora investir

