No rastro da resiliência da dinâmica econômica brasileira, o Comitê de Decisão Monetária (Codem) tem a perspectiva de manter os juros na reunião desta semana, adiando o começo do ciclo de cortes para a reunião de março, conforme especialistas entrevistados pela IstoÉ Dinheiro.
Devido a um mercado de trabalho ainda em baixa e indicadores de atividade que indicam uma desaceleração dentro do previsto, grande parte do mercado prevê que o Codem se limite a fazer alterações no comunicado.
A maior discrepância está nas conversas sobre a taxa Selic final, que pode variar de 12% a 12,50%, e na magnitude dos cortes, com alguns especialistas esperando que o ciclo comece com 0,25 ponto percentual (p.p.), enquanto outros visam cinco cortes seguidos de 0,50 p.p..
Decisão está agendada para março; datas das próximas reuniões
Júlio Almeida, estrategista macro da XYZ Portfolio Solutions, prevê um corte de 0,25 p.p. e um comunicado sem a parte que menciona que o BC ‘não hesitará em elevar a taxa de juros’.
“Isso indicaria o começo do ciclo de cortes, ainda que não seja explícito ao declarar isso”, observa.
A visão do lado vendedor do XYZ, portanto, é de ‘redução com credibilidade’, com um BC mais moderado ao iniciar a flexibilização da política monetária e, aos poucos, adotando uma postura mais favorável ao afrouxamento.
Além disso, a autoridade monetária teria mais tempo para examinar uma nova leva de dados do mercado de trabalho e da atividade, o que ajudaria a fundamentar ainda mais as próximas decisões do Codem.
Em relação à inflação, Almeida comenta que, apesar de o IPCA ter terminado abaixo do limite máximo da meta, o núcleo ainda é motivo de preocupação.
“Mesmo com o câmbio na faixa de R$ 5,30, atuando como fator deflacionário, o BC não deve cortar em janeiro. A redução precisa ser feita com credibilidade e a inflação de serviços precisa desacelerar. Alguns setores continuarão respondendo bem a esse câmbio, mas o cerne da inflação, que são os serviços, inclusive piorou, de forma marginal, desde o último Codem até hoje.”
Cinco reduções seguidas na Selic
Lucas Silva, economista-chefe da ABC, estima cinco cortes consecutivos na Selic, começando na reunião de março. O quadro prevê uma pausa no ciclo de baixas da taxa de juros na reunião de setembro, encerrando o ano com juros básicos a 12,50%.
Para o ano seguinte, a previsão é de 10,75%
“Temos essa visão desde o meio do segundo semestre do ano passado, com corte apenas em março. Esperamos mudanças no comunicado, com o BC preparando os dados. Em geral, é um cenário mais otimista”, comenta.
O economista ressalta que o câmbio deve aliviar a pressão sobre a atividade e a inflação, e que a inflação novamente deve ficar dentro da faixa almejada pela meta. A projeção da ABC é de 4% de IPCA – enquanto a inflação de serviços, que é mais preocupante, deve diminuir para 5%.
Quanto à área fiscal, destaca que a trajetória da dívida ainda é um ponto crítico, apesar da expectativa do Governo Federal de cumprir a meta primária.
“O que mais me preocupa é a trajetória da dívida. Acreditamos que o governo conseguirá atingir as metas fiscais, mas há dois pontos que merecem atenção. Um deles é que teremos uma atividade mais fraca em 2026, com uma previsão de 1,8%. A arrecadação deve desacelerar”, avalia.
“Outro ponto que estamos monitorando é que o governo deve lançar mão de outras ferramentas para aumentar a popularidade, como programas de crédito, crédito consignado privado, além da reforma do imposto de renda”, completa, citando medidas que terão impacto na área fiscal.
4 a cada 10 componentes do IPCA ultrapassam o limite superior da meta de inflação
Em seu relatório macroeconômico mais recente, a XYZ aponta um cenário de curto prazo mais positivo para a economia brasileira em 2026, porém com desafios significativos no horizonte de 2027, especialmente no aspecto fiscal.
No que se refere à inflação, a instituição destaca fundamentos mais favoráveis para produtos industrializados em 2026, mas alerta que a inflação de serviços deve permanecer alta, influenciada por um mercado de trabalho restrito e por um cenário fiscal expansivo.
Apesar da melhora recente nos índices, uma parcela considerável dos componentes do IPCA continua acima do limite superior da meta, e as projeções inflacionárias continuam elevadas.

“Apesar do alívio recente, cerca de 40% dos componentes do IPCA ultrapassam o limite superior da meta”, informa o time de macroeconomia da XYZ, liderado pelo economista Caio Megale.
No campo da política monetária, a XYZ afirma que o comportamento da inflação tem sido mais favorável do que o esperado, porém destaca que as expectativas ainda estão significativamente acima da meta.
A instituição mantém a projeção de início do ciclo de cortes de juros em março, tema central para a reunião do Codem de janeiro, que tende a reforçar uma postura de cautela e baseada nos dados disponíveis.
A projeção da taxa Selic final é de 12,50%.
Selic de um único dígito em cenário de foco na reforma
Megale, da XYZ, afirmou em entrevista à IstoÉ Dinheiro na semana passada que uma taxa básica de juros na faixa de 9% é viável para 2027 em um contexto de governo comprometido com reformas e responsabilidade fiscal.
“O Banco Central tem margem para reduzir o “aperto extra” que foi necessário anteriormente. Vemos a possibilidade de um corte total na ordem de 2,5 a 3 pontos percentuais ao longo do ano. A taxa de 12,50% ainda representa um juro real elevado para uma inflação que se mantém em torno de 4,5%”, afirmou.
“Se o governo indicar uma série de reformas no segundo semestre [como as administrativa e a desvinculação do orçamento mencionadas anteriormente], existe espaço para um patamar de 11% ou 9,5% no próximo ano. Por outro lado, se as circunstâncias apontarem para ‘ajustes insuficientes’, o BC deve agir com mais cautela e manter a taxa em 12,50%.”
*Artigo original publicado em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir
Fonte: Bora investir

