A determinação do Comitê de Política Monetária, conhecido como Copom, do Banco Central, de manter a taxa de juros em 15% ao ano já era antecipada pelos participantes do mercado, com o foco principal voltado para a declaração do Comitê. No final do comunicado, o destaque foi para a indicação feita, que chamou a atenção dos especialistas.
O Copom adiantou que, caso o cenário atual se mantenha, é provável que ocorra o início da redução da taxa de juros na próxima reunião, marcada para os dias 17 e 18 de março, ainda que com calma. “Havia várias possibilidades em consideração, mas os integrantes do comitê optaram pela alternativa mais explícita possível, voltando a utilizar o ‘forward guidance’”, menciona Flávio Serrano, principal economista do Banco Bmg. “O ponto alto está no último parágrafo, no qual o Banco Central sinaliza de maneira muito clara, o que foi uma surpresa”, destaca Bruno Perri, economista-chefe e fundador da Forum Investimentos.
Com essa decisão, Pedro Ros, CEO da Referência Capital, comenta que “o Copom desloca o foco da análise do nível da taxa para a expectativa sobre o próximo movimento”. Portanto, os participantes do mercado agora estão divididos quanto à possível magnitude do corte, seja de 0,25 ponto percentual, para aqueles que acreditam que o Copom manterá a “prudência”, ou de 0,50 ponto percentual, apostando naqueles que consideram que os indicadores abrirão espaço para um corte mais amplo.
“Em um ambiente de menor inflação e transmissão da política monetária mais clara, a estratégia envolve a calibração do nível de juros. O Comitê prevê que, se o cenário esperado se confirmar, começará a flexibilizar a política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para garantir a convergência da inflação à meta. O comprometimento com a meta exige cautela quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, os quais dependerão da evolução de fatores que permitam maior confiança na consecução da meta de inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária”, destaca o trecho do comunicado do Copom.
No último parágrafo, o Banco Central fornece pistas sobre a estratégia a seguir. Ele menciona abertamente que prevê que o ciclo de redução da taxa Selic será iniciado na próxima reunião”, ressalta Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval. O banco mantém sua estimativa de um corte de 0,25 ponto percentual para a próxima reunião, na mesma proporção na sequência, para posteriormente ampliar esse corte e atingir 12% no final do ano. Segundo o Boletim Focus, pesquisa semanal realizada pelo Banco Central com participantes do mercado, a previsão é que a Selic encerre 2026 em 12,5%.
O economista Pablo Spyer, membro do conselho da Ancord, também destaca a sinalização feita pelo Copom. “Promoveu uma mudança significativa na comunicação ao indicar, de forma explícita, a intenção de iniciar o ciclo de cortes de juros já na próxima reunião. Ao antecipar a flexibilização, o Banco Central oferece uma orientação futura clara, porém cuidadosamente condicionada, reforçando que o compromisso com a meta exige cautela em relação ao ritmo e à magnitude dos cortes”. Para Spyer, a mensagem é que o ciclo de aperto chegou ao fim, mas o ciclo de redução será conduzido com serenidade.
Roberto Padovani, economista-chefe do BV, afirma que a projeção do banco se mantém, com um corte em “ritmo cauteloso” de 0,25 ponto percentual, levando a taxa a 12% ao final deste ano. Já Serrano, do Banco Bmg, projeta um corte de 0,50 ponto percentual na reunião de março, “mesmo com o Copom indicando uma maior cautela em relação ao possível ritmo de ajuste”.
Na Austing Rating, também se prevê um corte de 0,50 p.p. em março, com a expectativa de uma Selic a 11,50% no final de 2026. “Apesar do tom cauteloso, que para alguns pode indicar um corte tímido de apenas 0,25 p.p., para a Austin Rating o Comitê terá condições mais seguras para um corte de 0,5 p.p., mantendo esse ritmo contínuo até a última reunião de 2026. No entanto, o comunicado deixou claro que existem riscos no cenário atual e que desvios em relação ao cenário base podem levar a mudanças na posição do Comitê”, destaca a análise assinada pelos economistas Alex Agostini e Rodolpho Sartori.
Esta foi a primeira reunião do Copom em 2026 e a quinta consecutiva sem mudanças – “o que reforça a estratégia de evitar uma flexibilização prematura que possa prejudicar o processo de ancoragem das expectativas”, observa Lucca Macieira, analista de mercado da Victrix Capital.
A reunião do Copom no Brasil coincidiu com a decisão de juros nos Estados Unidos, conhecida como Super Quarta. Lá, a taxa também foi mantida, porém sem consenso entre os membros do comitê, o Fomc. Dos 12 membros do Fomc (equivalente ao Comitê de Política Monetária no Brasil), 10 votaram pela manutenção, incluindo o presidente Jerome Powell. Outros dois membros votaram a favor de uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa.
A taxa de juros representa o principal instrumento de política monetária para direcionar a inflação para a meta. A meta definida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, ou seja, entre 1,5% e 4,5% ao ano. Na avaliação do Copom, os membros indicam a expectativa de que a inflação permaneça acima da meta, apesar da redução nas últimas leituras.
Além do índice inflacionário, o Comitê também analisa outros indicadores, como a taxa de emprego, situação fiscal, atividade econômica e cenário externo. “Devemos continuar observando a Selic em um patamar bastante restritivo, mesmo com o início do ciclo de cortes. Pelo menos para este ano e após isso, é claro que existe um fator eleitoral que tende a influenciar de maneira significativa as próximas decisões”, observa Perri, da Forum Investimentos.
*Artigo publicado originalmente em IstoÉ Dinheiro, parceiro da B3 Bora Investir
Fonte: Bora investir

