A operação de reestruturação financeira da Raízen representa o mais extenso procedimento já efetuado de forma extrajudicial no Brasil, de acordo com Luiz Fabiano Saragiotto, líder do conselho da TMA Brasil, braço brasileiro de uma instituição global sem fins lucrativos especializada em reabilitação e remodelação empresarial.
No requerimento de reestruturação financeira extrajudicial, a Raízen anunciou seu intuito de reorganizar passivos em torno de R$ 65,1 bilhões. Esse montante ultrapassa em muito os R$ 4,5 bilhões referentes à reestruturação realizada pelo GPA, assim como as dívidas de outras grandes companhias recentemente, como Americanas e Gol.
A fabricante de açúcar e etanol, pertencente ao grupo Cosan e Shell, deixou claro que o plano não incluirá débitos e compromissos com seus clientes, fornecedores, revendedores e outros parceiros comerciais, “vitais para suas operações e continuidade dos negócios, os quais permanecerão vigentes e serão cumpridos conforme os respectivos contratos”.
Compreenda a crise da Raízen em 4 pontos:
1 – Quantia da dívida
No pedido de reestruturação financeira extrajudicial, a Raízen divulgou que o passivo total a ser reestruturado equivale a R$ 98,63 bilhões, sendo R$ 65,14 bilhões provenientes de créditos sujeitos ao plano, e R$ 33,49 bilhões decorrentes de obrigações existentes entre os sócios, ou seja, “créditos intercompany”.
A dívida líquida da Raízen aumentou devido a uma combinação de investimentos consideráveis, condições climáticas instáveis e incêndios florestais, resultando em colheitas menos produtivas e menor volume de processamento, levando a empresa a alertar, em fevereiro, sobre uma “significativa incerteza” acerca de sua capacidade de manter suas operações.
De acordo com a empresa, embora a maior parte da dívida seja de longo prazo (com prazo médio de 7,6 anos), aproximadamente R$ 13 bilhões precisarão ser desembolsados nos próximos 24 meses, apenas para amortização.
2 – Proprietários da empresa líder no segmento agroenergético
O grupo é o principal processador de cana-de-açúcar a nível global. Na área de Distribuição de Combustíveis, é o segundo maior distribuidor no Brasil e na Argentina. A Raízen também se destaca como um dos principais comerciantes mundiais de etanol e açúcar.
A Shell e a Cosan, um conglomerado industrial fundado por Rubens Ometto, possuem 44% cada na Raízen.
Com mais de 34 mil colaboradores, o Grupo Raízen controla 35 usinas de produção de açúcar, etanol e bioenergia, registrando uma receita líquida de R$ 255,3 bilhões na safra 2024/2025. Durante esse período, produziu mais de 5 milhões de toneladas de açúcar; fabricou mais de 3 bilhões de litros de etanol; e gerou mais de 1,9 GWH de energia renovável.
3 – De avaliação de R$ 76 bi após IPO a ‘mínimo’
A Raízen originou-se de uma joint venture entre Shell e Cosan e foi notável, em 2021, por ter realizado o maior IPO (Oferta Pública de Ações – abertura de capital) daquele ano, no valor de R$ 6,9 bilhões. Na ocasião, em 4 de agosto, as ações foram precificadas a R$ 7,40. Recentemente, chegaram a ser negociadas na B3 abaixo de R$ 0,50
A partir do IPO, a Raízen perdeu quase R$ 71 bilhões em valor de mercado, passando de R$ 76,298 bilhões em 1º de outubro de 2021 para R$ 5,378 bilhões em 10 de março de 2026.

4 – Próximos passos
Conforme o comunicado relevante da empresa, seu plano conseguiu a adesão explícita de credores signatários titulares de mais de 47% dos passivos financeiros, o que representa um “apoio significativo às iniciativas para viabilizar a reestruturação dos compromissos financeiros do grupo”.
A Raízen também informou que terá um prazo de 90 dias, a partir do início da recuperação extrajudicial, para alcançar o percentual mínimo necessário para homologar o plano, “garantindo, assim, o comprometimento de 100% dos créditos sujeitos às novas condições de pagamento a serem estabelecidas”.
Segundo a empresa, a reorganização poderá envolver, além da reestruturação dos passivos:
- desinvestimento em ativos
- aporte de capital no Grupo Raízen por seus acionistas
- conversão de parte dos créditos sujeitos em ações da companhia
- substituição de parte dos créditos por novos débitos
- reestruturações societárias visando separar parte dos negócios atualmente conduzidos pelo grupo
Um representante da Shell afirmou que apoia a reestruturação, destacando a necessidade diante dos desafios financeiros consideráveis enfrentados pela Raízen. A Shell se propôs a aportar R$3,5 bilhões para auxiliar a Raízen.
A Cosan mencionou em um comunicado regulatório que a reestruturação não afeta suas obrigações, operações, estrutura de capital ou posição financeira. Suas atividades e relações comerciais seguem inalteradas, segundo a empresa.
*Artigo originariamente publicado em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir
Fonte: Bora investir

