O comércio de ganhos fixos conquistou, ultimamente, mais um produto de investimento entre as escolhas de crédito pessoal. Recentemente, o Magazine Luiza introduziu o seu primeiro Certificado de Depósito Bancário (CDB) do MagaluPay no mercado. A nova mercadoria se une aos CDBs fornecidos por outras grandes empresas do varejo, como Pernambucanas e Riachuelo, com ganhos acima de 100% do CDI.
A entrada das redes de venda no setor de crédito pessoal demonstra uma progressão normal do ramo. Se, previamente, as lojas se movimentavam para transformar em dinheiro a base de clientes utilizando cartões próprios e o oferecimento de operações de crédito, agora, elas diversificam as fontes de obtenção, conforme observa Bruno Perri, economista principal, estrategista de investimentos e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Na perspectiva corporativa, a medida diminui a dependência exclusiva do mercado de crédito convencional e dos grandes bancos, além de reforçar o envolvimento do cliente com a marca dentro do sistema digital.
No entanto, o que considerar ao decidir entre um ou outro CDB?
Ganhos acima de 100% do CDI
Para atrair o interesse dos investidores, os CDBs emitidos por instituições financeiras vinculadas ao ramo varejista tendem a oferecer taxas superiores às dos grandes bancos. Essa retribuição mais elevada funciona precisamente para compensar a percepção de um risco de crédito superior por parte do emissor e os prazos de vencimento, geralmente mais longos.
Enquanto os bancos tradicionais costumam remunerar CDBs de liquidez diária ou de curto prazo entre 90% e 100% do CDI, as alternativas das lojas apresentam rentabilidades mais agressivas, explica Douglas Rodrigues, planejador financeiro CFP, especializado em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School.
O CDB do MagaluPay, por exemplo, proporciona entre 102,5% e 104,5% do CDI, dependendo do prazo escolhido pelo investidor, que pode variar entre seis meses e dois anos. Essa taxa está de acordo com o que vem sendo oferecido por bancos online concorrentes no mercado, destaca Perri.
O que considerar ao investir
Antes de destinar recursos a esses títulos, a sugestão dos especialistas é realizar a pesquisa necessária, começando pelo que Rodrigues denomina de “fundamentos bem-elaborados”. A avaliação da saúde financeira necessita começar por compreender quem é o emissor, analisando dados como o nível de alavancagem, o histórico de resultados e a habilidade da empresa de gerar caixa em diferentes ciclos da economia.
Perri também recomenda observar relatórios de análises independentes, notas de classificação e métricas regulamentares, como o Índice de Basileia, que indica se a instituição possui capital para cobrir os riscos de crédito, e o Índice de Imobilização, que indica quanto de capital está ligado a ativos fixos, impactando a liquidez.
Além disso, é fundamental investigar a finalidade da captação de recursos. Se os fundos forem utilizados de modo recorrente para suprir desequilíbrios operacionais e pressões de curto prazo, o risco da operação se torna maior do que se fossem utilizados para o crescimento estrutural da empresa.
Ocorrências recentes no mercado de crédito pessoal, como a da Americanas e do Banco Master, salientam que, mesmo munido de informações públicas e validações formais como as classificações de crédito, o investidor pessoa física raramente consegue abarcar a totalidade da realidade financeira de uma empresa. Perri ressalta que os riscos são inerentes a qualquer investimento e que é crucial acompanhar as notícias sobre a entidade e contar com a proteção adicional oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Como alocar recursos nos CDBs das varejistas
No planejamento financeiro, esses CDBs exigem cautela e alinhamento de expectativas. Ambos especialistas são enfáticos ao afirmar que esses títulos não são recomendados para a reserva de emergência. Isso ocorre porque a reserva demanda liquidez imediata e máxima previsibilidade, características que não combinam com o risco de crédito mais elevado e os prazos fixos dos títulos de varejistas.
Perri recomenda essas aplicações para investidores com perfil conservador a moderado, desde que os recursos se destinem ao médio prazo, preferencialmente com vencimento superior a dois anos.
Para Rodrigues, esses ativos servem como uma ferramenta para o investidor moderado que já possui a parcela essencial da carteira bem estruturada e busca diversificação tática para maximizar o retorno, assumindo um risco adicional de maneira controlada.
Para alocar recursos nessas mercadorias, o acesso é simples e pode ser feito tanto diretamente pelas plataformas online das próprias lojas quanto por meio de corretoras e bancos de investimentos.
Simulações na prática
Para entender melhor o peso do risco e do retorno, os especialistas realizaram projeções com um investimento hipotético de R$ 10 mil.
Considerando um cenário com o CDI a 13,00% ao ano, Perri calcula que um investimento de R$ 10 mil em um CDB rendendo 104,5% do CDI pelo prazo de dois anos geraria um retorno bruto de 29,0%. Após o desconto de 15% do Imposto de Renda sobre o lucro, o investidor obteria um ganho líquido de 24,6% no período.
Em outra simulação realizada por Rodrigues, com o CDI projetado em torno de 14,75% ao ano, um CDB pagando 105% do indicador por 12 meses, o resultado seria um ganho líquido aproximado de R$ 1,3 mil.
Se o investidor optasse por ampliar o prazo para 24 meses buscando uma taxa de 110% do CDI, o ganho líquido poderia se aproximar de R$ 3 mil ao final do período.
Apesar da atratividade dos números, a precaução permanece sendo a regra de ouro. Rodrigues adverte que, como diretriz prática, um prêmio acima da média somente faz sentido se acompanhado de um prazo mais curto e proteção do FGC. Isso porque o retorno adicional existe, mas não cresce na mesma proporção que o risco e o tempo de exposição ao emissor.
“Acredito que a diferença de taxa existe e é significativa, porém ela necessita ser analisada dentro de um contexto mais amplo que inclui prazo, liquidez, risco de crédito e objetivo do cliente. No planejamento financeiro, a taxa isolada é apenas um dos elementos da decisão e não o principal”, avalia Rodrigues.
Fonte: Bora investir

