O setor brasileiro de finanças privadas atravessa um momento de instabilidade que tem levado investidores a reavaliarem suas estratégias. A elevação nos requerimentos de recuperação extrajudicial (RE) por corporações de capital aberto reflete um ambiente macroeconômico desafiador, caracterizado pela manutenção de índices de juros em níveis elevados e um desenvolvimento econômico inferior a 2%.
De acordo com Marcos Camilo, CEO da Pulse Capital, essa situação não é repentina, mas resultado de um contexto no qual os gastos financeiros corroem a liquidez operacional gradualmente. Quando as taxas de juros permanecem altas por longos períodos, a inadimplência torna-se uma consequência inevitável para empresas muito endividadas.
Elevação de juros ‘esgotou’ reservas das corporações
A ligação entre o custo da dívida e a produção de receita está por trás dessa crise. Bruno Perri, sócio-fundador da Forum Investimentos, esclarece que a maior parte das dívidas empresariais é pós-fixada (atrelada ao CDI), o que causa o aceleramento do valor devido rapidamente em contextos de juros elevados. “Empresas que se endividaram bastante com dívidas pós-fixadas (a taxas variáveis) em 2020 [quando a Selic estava em 2%] ou no fim de 2023 [quando a Selic começou a cair], observam o custo de suas dívidas aumentar rapidamente”, afirma Perri.
Simultaneamente, há um incentivo para a atual desconfiança em relação ao risco, que remete a acontecimentos recentes, como os casos Raízen, GPA e Americanas, além de fraudes em instituições financeiras, como o Banco Master e Digimais.
“Esses acontecimentos aumentaram a percepção de risco, levando os investidores a exigirem maiores compensações, o que culminou no aumento dos diferenciais de taxas”, explica Perri. Esse movimento teve um impacto direto nas finanças: em fevereiro e março, muitos fundos de crédito operaram abaixo do CDI, refletindo a desvalorização do valor de mercado causada pela exposição a essas taxas.
Por outro lado, a receita das empresas tende a aumentar apenas de forma proporcional ao PIB e à inflação, resultando em uma deterioração progressiva nos índices de endividamento e na habilidade de cobrir juros. “A receita dessas empresas cresce menos que as despesas financeiras, aumentando o endividamento e reduzindo a cobertura de juros”, analisa Perri.
O CEO da Pulse Capital enfatiza que o cenário de juros elevados por extensos períodos consome a liquidez operacional. “As empresas gastam uma alta quantia em despesas financeiras, diminuindo a capacidade de investimento e de cumprimento de obrigações operacionais. A inadimplência torna-se inevitável”.
Para o investidor comum, o efeito mais imediato dessas reestruturações é percebido no valor dos investimentos e na liquidez. No caso da Raízen, títulos financeiros como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) chegaram a apresentar descontos de até 70% no mercado secundário em comparação ao valor inicial, segundo Perri, indicando que um investimento de R$ 10 mil poderia ter seu valor diminuído para R$ 3 mil em momentos de pressão.
‘Demora’ nas agências de classificação e busca por rendimentos elevados
Uma das principais ameaças para o investidor reside na confiança excessiva em notas de classificação e na busca por rendimentos elevados sem uma análise técnica apropriada. Bruno Perri critica a demora das agências de avaliação de risco em rebaixar empresas que evidenciam deterioração financeira. “As agências de classificação são consideradas lentas para reconhecer mudanças, e casos recentes de empresas com classificações positivas que entraram em recuperação judicial evidenciam a exigência de avaliações mais minuciosas”, comenta Perri.
Adicionalmente, muitos investidores ignoram que ativos como Debêntures, CRI, CRA e FIDC não contam com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que se restringe a instrumentos como CDB, LCI e LCA.
Prudência e variedade
A orientação dos especialistas para navegar entre ativos e rendimentos é a prudência e a diversificação criteriosa.
Segundo Camilo, o investidor deve priorizar a qualidade dos ativos e a composição dos fundos, em vez de focar exclusivamente no desempenho passado.
Perri recomenda que o investidor estabeleça suas próprias diretrizes, como nunca alocar mais de 1% da carteira em um único devedor. Ele também menciona que investir em fundos de crédito, que são naturalmente diversificados, com 40 a 45 títulos, pode ser uma alternativa. Além disso, se um investimento parecer arriscado e incompatível com o perfil de risco, o investidor deve considerar vendê-lo antes de um evento de inadimplência ocorrer, pois posteriormente será mais difícil sair sem perdas significativas.
Se o perfil do investidor não suportar a volatilidade e o risco de crédito em vigor, migrar para títulos do Tesouro Direto ou ativos bancários com a garantia do FGC pode ser uma opção mais segura.
“O mercado financeiro no Brasil ainda precisa evoluir consideravelmente e aprender a precificar o risco de forma adequada”, afirma Marcos Camilo.
A perspectiva de alívio: 2027 e 2028
Para aqueles que aguardam uma recuperação rápida, a análise de Bruno Perri é de precaução. Ele antevê um período de “restrições financeiras” que deve persistir ao longo de 2026. “As empresas precisam se preparar para um período desafiador devido aos juros altos e ao crescimento limitado. A expectativa é que a situação melhore apenas em 2027 ou 2028, com juros menores proporcionando um alívio estrutural para o caixa”, explica. Isso porque uma redução constante na Selic demanda cerca de um ano para ser integralmente refletida nos balanços, diminuindo as despesas financeiras e liberando recursos para a operação.
Neste ínterim, as empresas endividadas necessitam focar na redução do passivo à medida que os vencimentos se aproximam.
Para o investidor, o ambiente de crise abre uma oportunidade de investimento, porém requer discernimento técnico. Enquanto o mercado está evitando o crédito privado, preferindo a segurança do Tesouro Direto ou de ativos bancários garantidos, surgem oportunidades para adquirir títulos de empresas de alta qualidade com taxas substancialmente superiores às praticadas meses atrás.
Fonte: Bora investir

