O Painel Monetário do Banco Central (BC) optou na data de hoje, 29, por diminuir a taxa principal de juros da economia (Selic) para 14,50% anuais. A resolução dos seis membros do conselho foi unânime. De acordo com os especialistas, a deliberação não surpreendeu quanto à magnitude do corte, de 0,25 ponto percentual, o que está de acordo com a previsão do mercado. Contudo, existem divergências em relação à velocidade e à amplitude do processo de afrouxamento monetário, em virtude das consequências da guerra no Oriente Médio na economia global e a deterioração das perspectivas inflacionárias no país.
Segundo a interpretação do Banco Itaú, o Painel Monetário tomou a decisão prevista, com um corte de 0,25 pp na taxa de juros. “As autoridades demonstraram preocupação com o panorama internacional, o que não é surpreendente, porém mantiveram a análise de que o equilíbrio de riscos em torno do cenário central é equilibrado. A projeção para o horizonte relevante (4°T27) está em 3,5%, ante 3,3% na última reunião (com horizonte no 3°T27), indicando o nível de satisfação do comitê. Mesmo assim, o comunicado menciona que a duração do ciclo será avaliada à luz das informações divulgadas. Isso é sempre considerado, mas quando as autoridades enfatizam esse ponto, há um indício de certo desconforto com as expectativas atuais para a taxa final de juros. Por ora, esperamos um corte de 25 pb (antes, 50 pb) na próxima reunião”.
Na análise da economista principal da B.Side Investimentos, Helena Veronese, o Comitê buscou manter flexibilidade na condução da política monetária, evitando qualquer comprometimento com o ritmo ou a extensão do ciclo de cortes. “A inclusão explícita da possibilidade de ajustes não apenas no ritmo, mas também na duração do ciclo, reforça uma postura mais aberta e sensível aos dados, especialmente diante da piora das expectativas de inflação e do aumento dos riscos externos”.
Ao longo da mensagem, a economista destaca que “a continuidade do processo de flexibilização ainda deverá ocorrer de forma gradual e condicionada à evolução do cenário. Especificamente, o comportamento da inflação, a performance do câmbio e as desdobramentos do conflito no Oriente Médio serão cruciais para os próximos passos: quanto mais prolongado for o conflito, menor tenderá a ser o ciclo; se o conflito for rapidamente encerrado, haverá mais espaço para um ciclo mais extenso. Mais do que buscar um ciclo prolongado de cortes, o Copom prioriza, neste momento, a preservação da credibilidade sobre a extensão do afrouxamento”.
Para a Warren Investimentos, o comunicado apresenta um tom entre neutro e hawkish. “Neutro por afirmar que está prosseguindo com o ciclo de calibragem, mas hawkish (firme) por colocar em discussão a duração desses cortes, o que indicaria menor corte em 2026, e pelo aumento nas projeções de inflação no modelo do BC. O Copom seguiu com uma decisão alinhada à precificação de mercado. Em meio a um novo momento de aversão ao risco na sessão de hoje, devido à renovada incerteza quanto ao conflito no Oriente Médio, o Copom pode ficar em segundo plano. Contudo, considerando a precificação atual de um ciclo mais breve, não esperamos uma reação significativa da curva de juros ao comunicado”.
Segundo Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, as maiores incertezas estavam relacionadas à comunicação do Copom, principalmente em relação ao balanço de riscos para o cenário inflacionário. Em comunicado, o economista ressalta que “A mensagem do Comitê seguiu muito semelhante à mensagem da reunião anterior, destacando serenidade e cautela na condução da política monetária. Os próximos passos do processo de calibração da taxa básica de juros deverão considerar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo. A decisão e o comunicado de hoje não impactam nossa visão sobre o cenário mais provável para a taxa de juros. Na nossa avaliação, o BC continuará reduzindo de 0,25 p.p. em 0,25 p.p. enquanto a situação permitir e a Selic deverá concluir o ano próximo de 13,00% a.a.”.
Conforme Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, o Copom continua destacando que o cenário internacional está bastante incerto, especialmente devido às questões relacionadas ao Oriente Médio, e aponta que a atividade econômica brasileira permanece em desaceleração, embora o mercado de trabalho demonstre alguma resiliência, então esses dois fatores são bastante parecidos com a comunicação anterior”.
Quanto à inflação, o economista do banco enfatiza que “a inflação atual está em pior situação, tanto a mensurada quanto os núcleos, se afastando ainda mais da meta, as expectativas de inflação também se deterioram, assim como as projeções do Banco Central para o Horizonte Relevante, que ficaram em 3,5, acima do que imaginávamos, de 3,3, então é uma piora significativa”.
O comunicado do Daycoval destaca, “quando analisamos tudo isso em conjunto, uma inflação atual pior, expectativa pior, projeção pior, um risco de efeitos secundários no balanço de riscos abordado e essa discussão sobre a extensão, a impressão que temos é que o Banco Central colocou em pauta a possibilidade de interrupção em algum momento nas próximas reuniões. Então, ainda consideramos o corte de 25 para a próxima, porém acreditamos que o ponto novo na comunicação do Banco Central hoje é justamente esse sinal de que uma pausa no ciclo nas próximas reuniões não está descartada”.
Na análise da equipe do Banco BV, a decisão pode ser interpretada como um indicativo de que o ajuste continuará, mesmo que de forma tranquila e serena, o que deve se refletir em um ritmo de 0,25 ponto percentual. “Isso deve persistir pelo menos por algumas reuniões. O que entendemos do comunicado é que o Banco Central vê o cenário atual como temporário. Afinal, suas projeções de inflação para o final do horizonte, até o final do quarto trimestre de 2027, aumentaram um pouco, para 3,5%. Portanto, o Banco Central, de maneira geral, está sugerindo que esse choque é temporário. Assim, ao entender que o choque é temporário e que há bastante margem para fazer esse ajuste, o banco central fica confortável em seguir nesse ritmo de ajuste nas próximas reuniões e é isso que ele indicou”.
Bruno Perri, economista-chefe, estrategista de investimentos e cofundador da Fórum Investimentos, destaca que o Banco Central adota uma postura cautelosa, enfatizando os riscos, que de fato têm pressionado a economia global e local, em decorrência de uma inflação estruturalmente mais alta a curto prazo com a Guerra entre EUA e Irã e seus impactos nos preços.
“Ficou evidente que o comunicado adotou um tom mais pessimista em relação ao cenário externo, devido à persistência do conflito e seus efeitos sobre os preços de energia. Eles deram mais importância aos riscos do conflito, sem dúvidas. Em minha opinião, refletiu o cenário mais desafiador, mas já indicou a possibilidade de cortes para a próxima reunião (o que não era uma certeza pelo mercado”, afirmou por nota. Em relação à inflação interna, o comunicado adotou uma visão mais cautelosa, reiterando que a inflação atual está se distanciando da meta.
Mercado de imóveis
O associado e CEO da incorporadora AW Realty, Claudio Carvalho, avalia que a decisão do Painel de Política Monetária (Copom) de reduzir 0,25 ponto percentual da Selic, para 14,50% ao ano, é benéfica para o setor imobiliário.
Em comunicado, Carvalho ressalta que mesmo que a Selic permaneça distante do alvo desejado de um dígito, o financiamento de habitação para as classes médias e altas com recursos da poupança cresceu 11,9% no primeiro trimestre, totalizando R$ 42,4 bilhões, conforme a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
“A redução da taxa principal de juros e o aumento da concessão de recursos para construção e compra de residências são muito positivos, principalmente quando se considera que o ambiente está mais desafiador em termos de custos de construção devido à guerra no Oriente Médio.”
*Artigo originalmente publicado em IstoÉ Dinheiro, parceira da B3 Bora Investir
Fonte: Bora investir

