O declínio do grupo liderado pelo Banco Principal, iniciado em novembro de 2025, não apenas revelou uma lacuna de mais de R$ 40 bilhões nas finanças do Fundo de Proteção ao Crédito como desencadeou um efeito cascata em parte do setor financeiro.
A falência do Principal resultou até o momento na intervenção do Banco Central em oito organizações financeiras. A maioria delas (5) estava diretamente vinculada à instituição de Daniel Vorcaro. As outras três não faziam parte do mesmo conjunto, mas tinham conexões muito próximas e acabaram seguindo o mesmo curso da falência.
A sequência de eventos teve início em 18 de novembro de 2025, quando a autoridade monetária decretou a falência simultânea de quatro frentes do grupo: o Banco Principal S.A., a Principal S.A. Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, a Principal de Investimento e a empresa de cartões do conglomerado.
A ação ocorreu um dia após a detenção de Daniel Vorcaro, controlador da instituição, capturado pela Polícia Federal na Operação Conformidade Nula. Investigações indicaram que o Principal operava com uma extrema vulnerabilidade: na semana da intervenção, possuía apenas R$ 4 milhões em caixa para cobrir obrigações de R$ 127 milhões.

Além das Fronteiras do Principal
A contaminação, contudo, ultrapassou os limites formais do Principal. Em janeiro de 2026, o Banco Central ampliou sua intervenção ao Banco Will. A empresa de tecnologia financeira especializada em crédito, que fazia parte do ecossistema do Principal, foi inicialmente preservada.
Esperava-se que o Banco Central encontrasse uma solução para a empresa de tecnologia financeira, que permaneceu operando sob Regime Especial de Administração Temporária (REAT). A solução se demonstrou inviável e a falência tornou-se inevitável, após o Banco Will deixar de cumprir pagamentos à Mastercard.
No mesmo período, a CBSF DTVM (ex-Reag Investimentos) também foi liquidada. O Banco Central identificou uma participação ativa dos fundos da Reag na manipulação artificial de ativos que serviam de garantia para o grupo do Principal.
Apesar da dissolução, a antiga Reag não acarretou perdas para o FGC. Os produtos oferecidos pela empresa gestora não contavam com a garantia do fundo e acabaram gerando prejuízos apenas aos investidores que adquiriram cotas de seus fundos.
As últimas duas peças do quebra-cabeça construído pelo caso Principal ruíram em meados de fevereiro. O Banco Completo (antigo Voiter) e a Completo DTVM, controlados por Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro no Banco Principal, foram liquidados pelo Banco Central no último dia 18.
Essa situação impôs um desafio sem precedentes ao Fundo de Proteção ao Crédito (FGC), com um montante de depósitos elegíveis que ultrapassa os R$ 50 bilhões. Muitos investidores foram atraídos por CDBs que prometiam rentabilidades de até 140% do CDI e pela garantia de que depósitos de até R$ 250 mil estariam cobertos pelo FGC.
O impacto é tão significativo que os grandes bancos brasileiros podem ser solicitados a contribuir com mais de R$ 30 bilhões para reabastecer o caixa do FGC. E alterações nas normas do FGC não estão descartadas, a fim de incluir outros participantes como depositantes do fundo.
Âmbito Político e Judicial
O caso agora se desdobra para as esferas política e jurídica. Enquanto o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Contas da União questionam a rapidez da supervisão do Banco Central, o Congresso Nacional articula uma CPI para investigar as relações entre o banco e a classe política, bem como o uso de instituições públicas, como o BRB, para a aquisição de créditos deteriorados.
*Artigo originalmente publicado em IstoÉ Dinheiro, parceiro da B3 Bora Investir

