Já operando acima dos US$ 110, o petróleo registra uma significativa alta diante da escalada do conflito, entretanto, o Itaú BBA contempla um cenário com certo otimismo. A perspectiva é que, até o início de abril, o Estreito de Ormuz seja reaberto, o que poderá resultar em uma correção nos valores do petróleo.
Dessa maneira, a avaliação é que o presente conflito assemelha-se à Guerra do Golfo e não se prolongará por muito tempo. Durante uma coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira, 19, o economista do Itaú, Pedro Schneider, ressaltou que, diante de um panorama de redução das tensões geopolíticas, é possível que o preço retorne a patamares inferiores a US$ 100 o barril.
Ao mesmo tempo em que o petróleo dispara, a Fazenda revisa sua projeção de inflação para 3,7% em 2026.
“A expectativa é que o fechamento [do estreito] se prolongue ao menos até meados de abril. Caso não haja mudanças, e o fechamento persista, os preços continuarão em ascensão. A tendência em relação aos valores atuais é de alta, não de queda, olhando para frente. Para retornar a valores inferiores a US$ 100, é necessário encontrar uma solução para a guerra, e não há previsão de curto prazo para isso. No entanto, a expectativa não é que a guerra dure o ano inteiro – justamente pela importância significativa da região”, afirma Pedro Schneider.
Considerando o elevado custo econômico decorrente do fechamento do estreito, torna-se um incentivo para que os EUA evitem escaladas de violência, a fim de prevenir choques inflacionários. Isso, por sua vez, poderia afetar a administração Trump nas eleições de meio de mandato que ocorrerão em novembro.
Mesmo em um cenário de ‘conflito temporário’, o impacto do petróleo deverá perdurar por mais de um mês.
No momento atual, as projeções da casa indicam uma inflação controlada, contudo, o conflito aumenta os riscos de alta e pode alterar uma das principais variáveis do Banco Central (BC).
Se o petróleo mantiver-se permanentemente acima dos níveis pré-guerra, a postura do BC – assim como a de outras autoridades monetárias ao redor do mundo – tenderá a ser mais austera.
No comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana, o BC reforçou sua postura cautelosa durante o ciclo de flexibilização, e um petróleo em torno de US$ 200 pode levar a autoridade monetária a reajustar seus planos.
“Quando o petróleo sobe e se mantém elevado, os bancos centrais elevam as taxas de juros. Durante o embargo da OPEC na década de 1970, o Federal Reserve estava aumentando as taxas, tentou reduzi-las, mas foi impactado pelo choque do petróleo. Quando isso ocorreu, o Fed precisou elevar as taxas novamente”, exemplifica Schneider.
“No caso do Fed, se atualizarmos esse cenário para os dias atuais, até ontem não havia mais expectativas de corte de juros neste ano. Obviamente, isso depende de outros fatores, não apenas da inflação, mas também do tamanho do choque do petróleo, da atividade econômica, e percebemos uma economia forte nos Estados Unidos. Portanto, a probabilidade de o Fed não conseguir reduzir os juros este ano tem aumentado, pois a inflação lá está em torno de 3%. Existe um risco de que a inflação seja superior a 3%, e não inferior a 3%”, completa.
A projeção da casa é de um petróleo variando entre US$ 70 e US$ 75 ao final deste ano, com os preços já refletindo o risco geopolítico que permanecerá em destaque – cenário considerado o mais plausível pela instituição.
Ao analisar juros e inflação, o Itaú prevê uma taxa Selic terminal de 12,25% para 2026 e de 11,25% para 2027, ao passo que a expectativa de inflação se mantém em 3,8% para este ano e 3,9% para o próximo.

Inflação permanece ‘controlada’ apesar do impacto do petróleo
Julia Gottlieb, também economista do banco, destaca que, embora tenham sido registradas surpresas nas altas do IPCA-15 e do IPCA de fevereiro, com alguns itens voláteis apresentando aumentos acima do esperado – incluindo passagens aéreas, seguro de automóveis e outros produtos – a casa continua observando uma ‘inflação atual ainda controlada’.
“Atualmente, os riscos relacionados à inflação tornaram-se mais significativos, especialmente devido aos impactos nos preços dos combustíveis, que estão diretamente associados ao conflito e ao seu efeito nos preços do petróleo”, analisa.
Gustavo Franco aponta que o governo precisa reduzir despesas ou rever a meta de inflação para que os juros possam ser reduzidos.
Salienta-se que, a cada aumento de 10% no preço da gasolina repassado pela Petrobras às refinarias, há um impacto direto de aproximadamente 20 pontos-base (bps) na inflação.
No caso do diesel, o efeito é indireto, com os mesmos 10% gerando um impacto de 20bps, porém, devido ao baixo peso desse combustível no índice de inflação, o impacto se dá de forma indireta por afetar toda a cadeia econômica, aumentando os custos de transporte.
“Há riscos de alta tanto para a gasolina quanto para o diesel, sendo esse o principal efeito direto e de maior risco para a inflação. Além disso, há um risco adicional relacionado ao conflito, que é a possibilidade de sua prolongação. Isso poderia resultar no aumento dos preços dos fertilizantes, e quanto mais elevado o preço dos fertilizantes, maior o custo da soja e do trigo. Nossa dependência de fertilizantes é significativa, e esperamos que esse efeito seja mais perceptível em 2027 do que em 2026”, detalha.
Quanto ao ciclo de política monetária, destaca-se a discordância significativa do mercado em relação à intensidade dos cortes, exemplificando que, para o último Copom, houve divergências nas projeções, com alguns players prevendo cortes de 0,25%, 0,5% e até mesmo a manutenção das taxas.
“O BC iniciou o ciclo de flexibilização com um corte de 25bps. O Copom adotou uma postura cautelosa no início e está ajustando o nível de restrição. A redução dos juros continuará, mas a magnitude dependerá da evolução do conflito, e do impacto nos preços do petróleo e, por conseguinte, nas expectativas de inflação em um horizonte significativo”, destaca.

*Artigo originalmente publicado em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir
Fonte: Bora investir

