O real encerrou a semana passada a R$ 4,89 e continua avaliando o suporte psicológico de R$ 5. O mercado destaca como elementos de risco, entretanto, o panorama eleitoral – tanto as eleições de meio de mandato nos EUA quanto as eleições presidenciais no Brasil – e a direção da política de juros no Brasil.
O gap de juros entre o Brasil e os EUA é um dos fatores fundamentais que ajudam a explicar o fluxo de reais para o país e o câmbio atual. Embora o Brasil não tenha um motivo singular e específico para atrair capital estrangeiro, o cenário global ampliou o interesse ao risco dos investidores, direcionando investimentos para mercados emergentes – e então atuando como uma pressão para baixar a valorização do real.
Observe a trajetória do câmbio nos meses recentes:

“Antecipamos mais flutuações, pois atualmente [o real] está bastante moderado, desde o término do ano passado oscila em faixas bem restritas, e isso se ampliará com as eleições, inclusive afetando outros ativos como DI, bolsa. O Brasil não aprimorou seus fundamentos nesses quatro anos de governo, e a situação fiscal segue bastante preocupante. Fomos favorecidos pelo fluxo, com um estrangeiro mais otimista em relação ao Brasil até mais do que os investidores nacionais”, comenta Bruno Shahini, expert em investimentos da Nomad.
“O discurso [do vencedor] pós-eleições é mais crucial do que as eleições em si”, acrescenta, explicando que indicações em favor de um ajuste fiscal e sobre a agenda de indexações devem ser pontos positivos.
Gustavo Sung, analista-chefe da Suno, visualiza uma taxa de câmbio podendo terminar em R$ 5,40 devido à potencial pressão altista ocasionada pelas eleições. No entanto, a empresa prevê que a moeda permaneça na faixa dos R$ 5 durante o segundo e terceiro trimestres deste ano.
“Nossa expectativa é de um cenário mais favorável para a taxa de câmbio a curto prazo. Esperamos uma volatilidade adicional devido a questões eleitorais e domésticas, envolvendo definições sobre a política econômica, assuntos fiscais, quem sairá vitorioso; será uma disputa eleitoral bastante acirrada. Essa volatilidade extra tende a elevar um pouco a moeda em relação ao que estamos observando atualmente”, explica.
E se democratas conquistarem eleições em Novembro?
A partir do liberation day o real perdeu força globalmente. A política comercial de Donald Trump diminuiu a relevância do país e, desde então, a moeda norte-americana nunca se recuperou.
O DXY, índice que mede a força do dólar contra uma cesta de moedas, estava em torno de 110 no fim de 2024, caindo para 98 ao longo do primeiro trimestre do ano seguinte, e para 96 nas semanas seguintes. Desde então, a cotação permaneceu lateralizada, sem indícios de recuperação. Atualmente o DXY está em 98.
No entanto, um revés para Trump poderia alterar parcialmente o cenário e impactar nos preços. Em novembro, os EUA terão eleições de meio de mandato e há possibilidades de uma vitória expressiva dos democratas – o que resultaria em uma restrição imediata às ações de Trump, que passaria a governar sem um amplo apoio no parlamento.
“Trump minou diversos pilares do dólar dos EUA, tanto com políticas tarifárias quanto com sua política externa; observamos o que ocorreu com a Groenlândia, o Canadá, as críticas a outros países membros da Otan. Com isso, testemunhamos a fraqueza do dólar não apenas advinda das políticas comerciais, mas de um desalinhamento em geral”, comenta Shahini, da Nomad.
“Caso tenhamos umas midterms com vitória democrata, a governabilidade de Trump fica bastante comprometida. Tornar-se-á muito mais árduo governar o país, e esse espaço para ações unilaterais se torna bastante limitado, podendo assim observar algum fortalecimento do dólar”, completa o especialista.

Fluxo cambial ainda é monitorado
Como um fator favorável para o real em relação ao dólar, o movimento de capital continua sendo um catalisador positivo, e o mercado ainda prevê que esse cenário persista nos próximos meses.
Um relatório do BTG Pactual que compila dados registrados pelo Banco Central (BC) destaca que na quarta semana de abril (20–24) houve uma entrada líquida de US$ 9,2 bilhões, sendo US$ 7,7 bilhões via conta financeira e US$ 1,5 bilhão pelo segmento comercial.
De acordo com o próprio BTG, essa foi a maior entrada semanal de dólares (financeira + comercial) já registrada no país.
“O segmento financeiro surpreendeu positivamente, superando todas as saídas de dólares observadas no início do mês”, afirmam os especialistas do BTG.

O investidor estrangeiro também atingiu um nível recorde de participação na bolsa brasileira, representando 61,2% do total de transações da B3 até 16 de abril de 2026, sendo a primeira vez que esse percentual ultrapassou os 60%.
Em termos de volume financeiro, foram R$ 26,4 bilhões aportados em janeiro, R$ 15,3 bilhões em fevereiro e R$ 11,9 bilhões em março – sendo que apenas janeiro superou todo o fluxo estrangeiro de 2025.
Ao todo, até 15 de abril, o estrangeiro direcionou R$ 67,7 bilhões para a bolsa, e o volume diário de transações aumentou 51% em relação ao ano anterior.
O que aguardar do real?
Segundo o último boletim Focus do Banco Central, a previsão do mercado para a cotação do real está em R$ 5,25 para o final deste ano. No final de 2027, estima-se que o real esteja em R$ 5,30.
A percepção é que o real persista sob pressão de fundamentos estruturais, porém ainda sem uma tendência clara de curto prazo.
O Itaú prevê um real a R$ 5,15 ao término deste ano, em uma revisão de cenário que foi atualizada com uma resolução do conflito Irã/EUA/Israel para o fim de maio (antes era fim de abril), implicando assim um persistente prêmio geopolítico e petróleo a US$ 85 por barril como média para este ano (em vez de US$ 75 anteriormente).
A percepção da instituição é que o bloqueio do Estreito de Ormuz pelos EUA como uma ferramenta de pressão econômica sobre o Irã é o principal mecanismo de transmissão para os preços globais de energia.
Dessa forma, a equipe de pesquisa macroeconômica do banco espera um crescimento de 2,5% do PIB no primeiro trimestre e vê o mercado de trabalho atingindo um ponto mínimo, com a taxa de desemprego caindo de 4,4% em fevereiro para 4,3% em março.
“O equilíbrio atual é instável e o caminho para a normalização do trânsito de navios no Oriente Médio é complicado, resultando em preços do petróleo mais elevados”, observa o Itaú.
Sobre a política monetária, atentos a um núcleo do PCE estimado em 3,2% ao ano para março, o Itaú não antecipa cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed) neste ano. Além disso, a instituição destaca que a confirmação de Kevin Warsh como novo presidente do Fed não deverá impactar a função de reação do BC americano.
*Artigo originalmente publicado em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir
Fonte: Bora investir

