A clareza das blockchains públicas, frequentemente mencionada como uma das maiores virtudes da tecnologia, também pode representar um perigo para usuários, empresas e investidores.
Esse foi um dos principais temas de um painel sobre privacidade na indústria onchain no TokenNation 2026, que reuniu especialistas de diferentes campos para debater os limites entre rastreabilidade, resguardo de dados, regulação, autocustódia e utilização diária de criptomoedas.
Durante o diálogo, Rocelo Lopes, Chefe da Iniciativa de Moeda Digital da Rezolve AI, mencionou que parte do mercado ainda lida com a privacidade em criptomoedas de maneira superficial. De acordo com ele, muitos usuários pensam que estão seguros simplesmente porque um endereço de blockchain não revela, à primeira vista, a identidade do titular da carteira. O problema, afirmou, é que essa segurança desaparece quando o endereço é compartilhado com terceiros.
“Quando eu forneci meu endereço, por exemplo, de USDT, para outra pessoa, ela já sabe qual é o meu endereço. Assim, ela já tem um bom entendimento, facilitando uma análise, do quanto possuo, do volume de transações que realizei. Tudo isso está exposto”, explicou.
Para exemplificar a gravidade da situação, Rocelo comparou a exposição de um endereço onchain à hipotética capacidade de acessar uma chave Pix em um site público e visualizar todas as transações e o saldo de alguém.
“Se a chave Pix também incorporasse essa mesma tecnologia, poderia entrar no site do Banco Central, informar sua chave Pix e visualizar todas as suas transações e verificar seu saldo, você concordaria? Não. Mas qual é a distinção para o endereço de USDT? Não há nenhuma diferença. É exatamente a mesma coisa”, enfatizou.
O executivo também mencionou um incidente pessoal para evidenciar que a exposição de informações financeiras onchain pode ter implicações fora do âmbito digital.
Em 2017, sua esposa foi sequestrada e o sequestrador exigiu resgate em Bitcoin, considerando posteriormente Zcash e Monero precisamente por serem ativos associados a uma maior privacidade. Rocelo compartilhou que o sequestrador sabia quanto ele detinha em Bitcoin porque já havia feito uma transação com ele e conhecia o endereço da carteira.
O caso foi utilizado como ilustração de um ponto central da discussão: privacidade em criptomoedas não se limita a ocultar informações de autoridades governamentais ou reguladores. Ela também pode estar relacionada à defesa contra criminosos, fraudes, sequestros, vazamentos de dados e exposição patrimonial.
Privacidade não é anonimato
Amanda de Camargo, também conhecida como AAmandita, integrante da equipe da Zcash no Brasil, defendeu que a abordagem sobre privacidade ainda carece de uma comunicação mais eficaz com o público.
Para ela, a maioria das pessoas não tem consciência plena do nível de exposição ao qual já estão sujeitas em redes sociais, aplicativos, sistemas de pagamento e bases de dados públicas ou privadas.
“A maioria das pessoas não compreende o conceito de privacidade. A maioria está exposta nas redes sociais, ao utilizar o Pix, nos dados governamentais. A maioria está exposta em todos os lugares”, afirmou.
De acordo com ela, um dos desafios é demonstrar que privacidade não deve ser interpretada como algo suspeito, mas como uma parte natural da vida cotidiana. AAmandita equiparou a salvaguarda de dados financeiros a práticas comuns de reserva pessoal, como não tomar banho com a porta aberta ou não deixar a casa destrancada.
“É crucial recordar que a privacidade é um requisito essencial e devemos preservar nossa privacidade porque vivemos numa era de vigilância”, expressou.
A representante da Zcash também destacou a diferença entre privacidade e anonimato. No caso da Zcash, esclareceu, o usuário pode optar por manter ativos transparentes ou protegidos.
Em situações de auditoria, existem mecanismos como as chaves de visualização, que possibilitam evidenciar informações específicas sem divulgar controle sobre os ativos. “Na Zcash, costumamos dizer que não se trata de esconder, e sim de proteger”, asseverou.
Daryl Akamine, Gerente do País da Ledger no Brasil, também sublinhou essa distinção. Para ele, a privacidade em criptomoedas reside na capacidade do usuário de administrar suas próprias informações e decidir o que compartilha, com quem compartilha e em que circunstâncias.
“Se você não controla suas chaves, se você não mantém aquilo que é mais valioso quando abordamos o onchain, que é essa autonomia sobre seus dados, suas informações e o que compartilha com as pessoas, todo o restante perde o propósito”, afirmou.
O executivo também alegou que a rastreabilidade das transações não é apenas uma questão teórica. Com exploradores de blocos, ferramentas analíticas e o avanço da inteligência artificial, a identificação de padrões financeiros tende a se tornar cada vez mais automatizada. “Não será um indivíduo que estará observando, será um robozinho trabalhando 24 horas por dia, 7 dias por semana”, salientou.
Para Daryl, a autocustódia é uma das formas de reforçar a autonomia do usuário, porém demanda precauções adicionais. Ele mencionou, por exemplo, o uso de passphrase, conhecida como a “25ª palavra”, como uma camada suplementar de proteção para quem mantém criptoativos em carteiras próprias.
Regulação e autocustódia
O debate também adentrou o impacto da regulação sobre a privacidade. Thiago Amaral dos Santos, advogado da Barcellos Tucunduva Advogados e docente da FGV e do Insper, afirmou que a maior dor de cabeça atual do setor cripto é ingressar definitivamente no perímetro regulamentado.
Conforme ele, os prestadores de serviços de ativos virtuais precisam lidar não apenas com normas de proteção de dados, mas também com obrigações relacionadas ao sigilo bancário.
“As PSAVs, os prestadores de serviços de ativos virtuais, agora devem cumprir a Lei Complementar 105”, disse. De acordo com Thiago, isso implica proteger não só dados pessoais, mas também dados transacionais, como origem e destino dos recursos, salvo nos casos em que exista a obrigação de reportar a entidades como Banco Central, Receita Federal ou Coaf.
Para o advogado, o desafio está em conciliar rastreabilidade e resguardo de dados. Ele explicou que informações regulamentares podem e devem ser comunicadas às autoridades quando solicitadas, porém isso não significa que empresas possam compartilhar livremente dados transacionais com parceiros ou terceiros.
“Preciso tornar isso anônimo, preciso criar meios para obedecer a essa lei complementar sob risco de penalidade penal”, indicou.
Ao mesmo tempo, Thiago considerou que a entrada no perímetro regulamentado pode ser benéfica para a adoção do setor. Em sua opinião, a regulação auxilia a oferecer confiança ao usuário comum, de maneira semelhante ao que ocorreu com contas digitais e instituições de pagamento.
“Agora está regulamentado, agora você pode usar”, afirmou. “O meu desejo é ver as pessoas utilizando cripto da mesma forma que usam a conta digital.”
Rocelo, por sua vez, alegou que a identificação do usuário é imprescindível em produtos de pagamento, especialmente para distinguir operações legítimas de atividades ilícitas.
Ele mencionou já ter sido contra processos de KYC, mas mudou de opinião diante da necessidade de manter empresas e startups em conformidade com as normas. “Para pagamentos, para proteger o ecossistema, a identificação é necessária. Não adianta tentar burlar isso”, assegurou.
Mesmo assim, ele diferenciou a identificação regulamentar de perder o controle sobre os ativos. Para Rocelo, o ponto crucial é preservar a chave privada sob o controle do usuário.
“Devo saber a proveniência dos fundos, devo saber o destino dos fundos. Porém, não preciso compartilhar a minha chave privada. É isso que devemos defender. Essa chave privada é minha e não vou compartilhar com ninguém”, expressou.
O painel também abordou a expansão dos pagamentos com cripto e stablecoins no Brasil. Thiago comentou que gostaria de ver as pessoas utilizando cripto diariamente, inclusive para comprar uma pizza, sem que isso seja automaticamente associado à ideia de esconder dinheiro. Para ele, a regulação pode auxiliar a diminuir o estigma sobre o setor e aproximar os ativos digitais de usos mais corriqueiros.
Rocelo, por sua vez, defendeu que o uso de carteiras e stablecoins pode aumentar, desde que o usuário compreenda os riscos, proteja sua chave privada e saiba separar a utilização diária da reserva de valor.
“Baixem a carteira, comecem a utilizar, convertam para o USDT, não gastem seu Bitcoin”, recomendou.
Apesar das discordâncias sobre o nível de vigilância estatal e sobre os limites da conformidade, os participantes concordaram em um ponto: a indústria cripto precisará considerar a privacidade como uma camada fundamental se quiser evoluir para pagamentos, stablecoins, autocustódia e tokenização em larga escala.
Sem isso, a promessa de autonomia financeira pode esbarrar em um problema fácil de compreender, porém complicado de resolver: ninguém deseja que sua vida financeira fique exposta para consulta de qualquer pessoa.
Fonte: Portal do Bitcoin

