Nos últimos meses, ocorreu uma significativa influxo de capital estrangeiro na bolsa brasileira. Até 11 de março de 2026, foram registrados R$ 43,841 bilhões investidos na B3. Adicionando a possibilidade de diminuição dos juros, temos uma situação que colocou novamente a renda variável no radar dos investidores nacionais.
O destaque recente foi o Ibovespa B3, que atingiu sucessivas marcas recordes. Porém, outro índice – e um diferente tipo de ação – ainda não recebeu muita atenção: as ações de menor valor de mercado, conhecidas como small caps. Essas empresas ainda não acompanharam integralmente a valorização das empresas presentes no Ibovespa. Conforme análise do Market Makers, o desconto das small caps em relação ao Ibovespa está no nível mais alto dos últimos 17 anos.
Para alguns especialistas, essa situação pode representar uma oportunidade – no entanto, é fundamental considerar os riscos antes de decidir investir ou não nesse segmento da bolsa. O Bora Investir entrevistou alguns especialistas para avaliar se realmente este é um momento propício para investir nesse setor do mercado.
Estão acessíveis as small caps na bolsa? Compreenda a redução em relação ao Ibovespa
Com a taxa Selic em um patamar histórico e os juros reais alcançando níveis máximos, os últimos anos foram desafiadores para as ações de empresas com menor capitalização de mercado. Devido ao acesso limitado a diversas fontes de financiamento e a uma maior exposição à economia do país, essas empresas geralmente são as mais impactadas em cenários macroeconômicos desfavoráveis para ativos de risco.
Em diversas métricas de valuation (métodos de avaliar o valor de uma empresa), essas ações se distanciaram ainda mais das chamadas blue chips, que são empresas mais consolidadas e frequentemente líderes em seus setores.
De acordo com Gustavo Harada, head de alocação da Blackbird Investimentos, “De forma geral, quando analisamos métricas de valuation, como índices de preço sobre lucro, as small caps são negociadas com um desconto significativo em relação às grandes empresas listadas na bolsa”. Ele acrescenta que “esse movimento não reflete apenas a fraqueza dos fundamentos, mas também fatores macroeconômicos”.
Essa situação está relacionada ao ambiente macroeconômico. Nos últimos anos, o contexto de juros elevados reduziu o interesse pelo risco e favoreceu, em comparação, as empresas de maior porte, mais líquidas e com fluxo de caixa mais estável.
Outro aspecto a considerar é o investimento estrangeiro. Segundo Danilo Coelho, economista especializado em investimentos, quando investidores estrangeiros iniciam suas posições no Brasil, tendem a concentrar-se primeiramente nas grandes empresas da bolsa, o que leva a uma valorização direcionada às blue chips.
“Quando o investidor estrangeiro entra no mercado brasileiro, ele geralmente aloca primeiro em títulos públicos e depois nas principais empresas da bolsa. Somente posteriormente é que esse fluxo alcança as empresas menores”, explica. “O investimento em small caps é como uma consequência secundária da entrada desse fluxo internacional de investimentos no Brasil”, destaca Coelho.
Contraste entre small caps e blue chips: quem são essas empresas da bolsa
As empresas listadas em bolsa são geralmente classificadas conforme sua capitalização de mercado e liquidez de suas ações. As blue chips são as companhias de maior capitalização de mercado e, em geral, líderes em seus setores. Elas costumam ter maior liquidez de ações, geração de caixa mais estável e, em muitos casos, distribuição regular de dividendos.
Gustavo Silva, sócio-fundador da Private Investimentos, destaca que “As blue chips são empresas com maior capitalização de mercado, líderes em seus setores, com geração de caixa mais previsível, margens consistentes e maior liquidez na bolsa”.
Por outro lado, as small caps são empresas com menor capitalização de mercado e liquidez limitada. Porém, são vistas como companhias com maior potencial de crescimento. “São empresas de menor capitalização e liquidez, com maior risco e volatilidade, mas também com um potencial de crescimento e valorização mais expressivo”, salienta Silva.
Em que cenários as small caps podem se valorizar significativamente
Mesmo com o desconto atual, as ações das empresas menores podem se beneficiar de mudanças no cenário macroeconômico. De acordo com Harada, essas empresas costumam apresentar melhor desempenho em períodos de redução dos juros e crescimento da atividade econômica.
Harada afirma: “As small caps costumam ter um desempenho superior em ambientes de recuperação econômica e redução dos juros, devido à maior alavancagem operacional e exposição ao crescimento interno do país.” Nessas fases, quando o custo do capital diminui e o consumo ou investimento se aceleram, o impacto nos resultados tende a ser mais significativo nas empresas de menor porte.
Outro fator que pode favorecer essas empresas é o fluxo de capital no mercado. Conforme Coelho, após um período inicial de investimento em blue chips, parte dos investidores pode vender parte de suas ações para obter lucro e alocar recursos em empresas menores. “Depois de entrarem nas grandes empresas, uma parte do capital estrangeiro pode migrar para as small caps, impulsionando assim o seu desempenho”, explica.
É vantajoso investir em small caps atualmente?
Apesar dos juros elevados, os especialistas afirmam que já existem oportunidades nesse segmento do mercado de ações. De acordo com Harada, o cenário atual favorece principalmente as empresas de maior porte, porém isso não significa que não haja espaço para investimentos em empresas menores.
Harada afirma: “Com os juros ainda altos, é natural que os investidores priorizem as empresas maiores e mais consolidadas. Ainda assim, já observamos surgimento de oportunidades nas small caps para quem deseja iniciar ou expandir sua posição”. O gestor acrescenta: “Nós temos observado sim surgimento de algumas oportunidades para iniciar ou expandir a posição em algumas small caps”.
Entretanto, a decisão de investir nesse segmento depende do perfil e horizonte de investimento de cada investidor.
Quais são os fatores de risco?
Embora essas empresas possam oferecer maior potencial de crescimento, também apresentam riscos mais elevados. Uma das principais questões é a volatilidade. Por terem menor liquidez no mercado, suas ações tendem a ter oscilações mais acentuadas. Coelho destaca que “As small caps costumam ser muito mais voláteis e sensíveis às oscilações dos juros e do ciclo econômico”.
Além disso, muitas dessas empresas são mais dependentes da atividade econômica nacional e, em alguns casos, possuem estruturas de capital mais suscetíveis ao custo de financiamento, conforme ressalta Harada. Ele conclui: “Portanto, uma análise detalhada é crucial para determinar se é realmente vantajoso incluir uma empresa desse tipo na carteira de investimentos”.
Fonte: Bora investir

