Em meio à onda de esperança com o Brasil, o investidor estrangeiro atingiu um nível máximo de participação na Bolsa brasileira, ultrapassando 60% pela primeira vez. Dados reunidos pela B3, indicam que as transações realizadas pelo investidor estrangeiro representam 61,2% das transações totais da Bolsa no acumulado do ano de 2026 até o dia 16 de abril.
O índice representa a maior parte das transações, como nos anos anteriores, superando as transações feitas por investidores institucionais (24,5%) e investidores pessoa física (11%).

O acréscimo do índice também demonstra um avanço em direção à próxima dezena percentual, visto que entre 2021 e 2025 o nível estava em torno de 50%, e antes disso abaixo de 40%.
Índice das transações B3 realizadas pelo investidor estrangeiro
- 2019 – 45%
- 2020 – 46,6%
- 2021 – 50,5%
- 2022 – 54,9%
- 2023 – 54,7%
- 2024 – 55,8%
- 2025 – 58,3%
O dado reflete uma correlação com o recente rali do Ibovespa, que flutua em torno dos 200 mil pontos atualmente – tal como nos episódios passados, há uma ligação entre o influxo de capital estrangeiro e a elevação do índice.
Com um desempenho positivo nos três meses anteriores – quando o estrangeiro representava mais de 60% das transações nos períodos mensais – o influxo de capital foi significativo na bolsa de valores brasileira, com R$ 26,4 bilhões investidos em janeiro, R$ 15,3 bilhões em fevereiro e R$ 11,9 bilhões em março, de acordo com dados da Quantum Finance.
No caso de janeiro, o montante ultrapassa o fluxo de todo o ano de 2025, quando o estrangeiro investiu R$ 25,4 bilhões na bolsa de valores brasileira.
A B3 indica que, até 15 de abril deste ano, foram alocados R$ 67,7 bilhões na bolsa.

De forma geral, o volume diário de transações na bolsa de valores (ADTV, na sigla em inglês) também aumentou 51% no acumulado de 2026 em relação ao ano anterior, atingindo os atuais R$ 37 bilhões.
Impacto do petróleo
Além disso, o dólar operou, pela primeira vez em dois anos, abaixo de R$ 5, devido à posição relativamente confortável do Brasil no cenário global em meio aos conflitos no Irã.
Visto que o país é um exportador líquido de petróleo, o BTG Pactual ajustou, na semana anterior, sua projeção para o superávit da balança comercial brasileira, que deve alcançar US$ 90 bilhões em 2026 segundo a instituição – um aumento considerável em relação aos US$ 75 bilhões da previsão anterior.

Brasil: a nova joia?
O fato de o Brasil ter se tornado o favorito dos investidores estrangeiros é resultado do reconhecimento do país como promissor por parte do sell-side.
Um relatório recente do Bank of America (BofA) recebeu o título de Brasil: a nova joia, elaborado após dois dias de encontros com clientes institucionais em Nova York e às vésperas das reuniões do FMI em Washington.
O relatório revela um cenário otimista com os ativos brasileiros – tanto o câmbio quanto a bolsa -, embasado por uma conjunção única de fatores macroeconômicos globais e dinâmicas políticas regionais favoráveis à América Latina como destino de investimento.
Além da valorização do dólar e da bolsa próxima aos 200 mil pontos, o BofA também ressalta a projeção da instituição de que a inflação encerre o ano em 5%.
O que torna o Brasil atrativo?
O banco identificou com seus clientes quatro motivos estruturais que tornam a região atrativa. Segundo o relatório, os investidores destacam que estamos em um período de ‘investimentos historicamente baixos em ativos da América Latina‘, abrindo espaço para um influxo expressivo de capital estrangeiro.
A isso se acrescenta o papel da região como fornecedora de commodities, em um contexto em que o dólar continua em baixa pressão.
O quarto fator, de natureza mais política, pode ser o mais delicado: a percepção de uma guinada conservadora em curso na região.
“Argentina e Chile já seguiram para a direita, e parece que o mesmo pode ocorrer na Colômbia, Peru e Brasil”, afirma o relatório.
O relatório do BofA observa que os investidores nacionais estão gradualmente aderindo à visão dos estrangeiros de que o resultado das eleições não necessariamente resultaria em uma fuga de ativos brasileiros, desde que a perspectiva de um dólar fraco se mantenha.
Adicionalmente, um dos aspectos enfatizados no relatório é a descrição do desempenho dos ativos brasileiros. O BofA reconhece que o movimento é ‘principalmente impulsionado por fluxos estrangeiros’, mas ressalta que ainda há margem para a continuidade dessas entradas.
Enquanto isso, os fundos locais, que enfrentaram desafios em março devido à venda de juros, ficaram à margem da tendência.
“Os ativos brasileiros continuam apresentando desempenho superior – especialmente ações e câmbio – o que tem intrigado alguns participantes do mercado, visto que o Brasil está se posicionando como um ativo livre de riscos”, destaca o documento do BofA.
Neste contexto, o termo ‘livre de riscos’, usualmente associado aos títulos do Tesouro americano, causaria surpresa em qualquer momento anterior. No entanto, a situação atual, com dólar fraco e busca por diversificação, explica a narrativa que circula entre os gestores internacionais.
Não é só alegria
Apesar disso, o banco destaca uma assimetria gerada pela venda em massa de títulos prefixados no mercado de juros.
Portanto, mesmo com os yields se tornando mais atrativos, o banco identifica dificuldades para o Banco Central (BC) acelerar o ritmo de redução da taxa de juros, devido à elevação das projeções de inflação – que, por sua vez, foram parcialmente influenciadas pelo cenário de conflito.
Vale ressaltar que o BofA revisou sua estimativa para o IPCA de 2026 de 4% para 5% há algumas semanas, com riscos ainda inclinados para cima. Títulos de inflação igualmente se beneficiam a curto prazo desse cenário, conforme o relatório.
*Artigo originalmente publicado em IstoÉ Dinheiro, em parceria com B3 Bora Investir
Fonte: Bora investir

