A presença do líder máximo dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, na China, para reunião com o presidente Xi Jinping, na noite de quarta-feira (13), no fuso horário de Brasília, atrai a atenção global em meio à turbulência no Irã, que continua abalando os laços internacionais e a economia mundial.
Considerada por Washington como uma ameaça à supremacia econômica e tecnológica que os EUA buscam manter no cenário internacional, a China foi o principal alvo da disputa comercial iniciada por Trump logo no início do 2º governo, em abril de 2025.
A resposta da China às tarifas, incluindo restrições às exportações de minerais raros, elementos cruciais para setores da tecnologia e defesa dos EUA, fez Trump recuar na aplicação de tarifas elevadas aos produtos chineses.
Ao iniciar um confronto com o Irã, no final de fevereiro, Trump também afetou os interesses de Pequim, principal comprador do petróleo de Teerã e interessado na reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passava 20% do petróleo global antes do conflito.
Segundo analistas consultados pela Agência Brasil, a disputa comercial e tecnológica entre Washington e Pequim pode representar uma oportunidade para o Brasil aprimorar sua posição no cenário mundial, especialmente porque o país detém a segunda maior reserva de minerais críticos do mundo, com aproximadamente 22%, ficando atrás apenas da China.
O encontro entre Trump e Xi Jinping estava agendado para o final de março, porém foi adiado devido ao conflito no Oriente Médio. O analista geopolítico Marco Fernandes, integrante do Conselho Popular do Brics, estimou que Trump planejava derrubar o governo iraniano rapidamente, chegando a Pequim em condições de impor acordos mais favoráveis a Washington a Xi Jinping.
“Ele estava confiante de que chegaria a Pequim com todas as vantagens para pressionar Xi, mas não contava com a resistência iraniana. Agora, Trump chega derrotado. Nunca um presidente dos EUA compareceu a uma reunião com um presidente chinês tão fragilizado e desacreditado como Trump está agora”, afirmou.
No entanto, Fernandes ressaltou que Xi Jinping conseguiu manter o crescimento das exportações chinesas mesmo após a ofensiva tarifária de Trump. Mesmo assim, a China deve buscar pressionar Trump para encerrar definitivamente o conflito no Oriente Médio.
“Está claro que há uma triangulação ocorrendo neste momento, entre Pequim, Moscou e Teerã. Não foi à toa que Araghchi [ministro das Relações Exteriores do Irã] esteve em Pequim na semana passada e também em Moscou. Rússia e China estão atuando como intermediários, em prol do Irã, para alcançar uma solução pacífica e o término do conflito. Este deve ser o principal ponto da reunião para Xi Jinping”, completou.
Taiwan
Em conversas com jornalistas no início da semana, Donald Trump revelou que planeja discutir com Xi Jinping a respeito da venda de armas dos EUA para Taiwan, região autônoma da China que busca independência política.
Pequim não aceita o reconhecimento da independência de Taiwan, o que costuma ser expresso na política de “uma única China”.
“A oposição firme da China à venda de armas americanas para a região de Taiwan, território chinês, é constante e clara”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, ao responder aos jornalistas nesta semana.
O professor de Relações Internacionais do Ibmec José Luiz Niemeyer, pondera que a China vai exigir que os EUA não promovam, de forma alguma, a independência de Taiwan.
“Eles vão discutir o que cada um é capaz de fazer nas áreas consideradas vitais. Irão delimitar até onde um pode avançar sobre o outro. Esta será a discussão central. E os EUA determinaram a América Latina como uma área de defesa de Washington”, explicou.
A doutrina do governo Trump tem enfatizado a influência de Washington na América Latina, bem como a luta contra a influência chinesa no continente. Pequim é o principal parceiro comercial da maioria dos países da América do Sul, incluindo o Brasil. Até os anos 2000, eram os EUA o principal parceiro das economias sul-americanas.
Segundo o especialista do Ibmec, a China está em uma posição mais favorável nas negociações, sendo que foi Trump quem visitou Pequim, e não Xi Jinping quem foi a Washington.
“Tenho a impressão de que esta visita indica a necessidade de uma aproximação entre os EUA e a China. Parece que o encontro tenderá a beneficiar mais a agenda chinesa do que a norte-americana”, completou José Luiz Niemeyer.
Terras raras
O tema das terras raras também deve ser um dos principais tópicos discutidos entre Trump e Xi Jinping, de acordo com o professor do Ibmec José Niemeyer. Estes minerais são essenciais para as indústrias militar, tecnológica e energética, sendo a China a líder na produção desses materiais.
“Os EUA dependem fortemente de dois minerais de terras raras, samário e neodímio, cruciais para a indústria bélica, para a fabricação de ímãs usados em mísseis. No entanto, os EUA não possuem esses materiais, ao contrário da China”, lembrou.
O analista Marco Fernandes salientou que a indústria dos EUA já tem acesso aos minerais críticos da China, mas observa que Pequim pode impor novas restrições, como fez durante a disputa tarifária, prejudicando os negócios norte-americanos.
Na semana passada, a China começou a aplicar a lei anti-sanções do país. Aprovada em 2021, ela proíbe que empresas no país reconheçam as sanções dos EUA. Esta medida foi uma resposta às recentes sanções de Washington contra empresas na China que negociam com os iranianos.
“Esta é uma mudança na postura da China, demonstrando firmeza em relação aos EUA. Toda vez que os EUA elevarem o tom, apostando em sanções e outras medidas anti-chinesas, a China revidará. Isso é significativo, pois representa um novo capítulo nas relações sino-americanas”, completou Marco.
Brasil entre China e EUA
As relações entre China e EUA são cruciais para o Brasil, uma vez que são os principais parceiros comerciais do país, e a disputa pelo controle das terras raras pode ser explorada por Brasília para obter ganhos políticos e econômicos das duas superpotências mundiais.
O professor José Luiz Niemeyer acredita que o Brasil pode se beneficiar das disputas entre Pequim e Washington ao adotar uma postura “passiva estratégica”.
“Cada vez que houver mais problemas no fornecimento de produtos entre EUA e China, o Brasil pode se aproveitar para exportar os produtos que estão em disputa entre os dois países, como, por exemplo, minerais de terras raras”, afirmou.
Para o analista do Conselho Popular do Brics Marco Fernandes, o Brasil está no centro da disputa entre EUA e China devido às terras raras.
“O Brasil precisa saber como se posicionar de forma soberana no meio dessa briga, garantindo seus próprios interesses”, defendeu.
*Agência Brasil
Fonte: Bora investir

