O previsto ciclo de redução na taxa básica de juros, a Selic, não deve se concretizar na mesma extensão que era antecipada inicialmente. Instituições financeiras e corretoras de investimentos já estão reavaliando as projeções e prevendo que a taxa encerrará o ano em até 14,25%, o que permitiria apenas mais um corte na taxa atual de 14,5%. No começo do ano, esperava-se que o ano fechasse com juros de 12,25%.
No entanto, houve mudanças no panorama. Globalmente, a continuidade do conflito no Oriente Médio e o aumento no preço do petróleo aumentaram as pressões inflacionárias, levando bancos centrais ao redor do mundo a adotar uma postura mais precavida e defensiva, com taxas de juros mais elevadas. No âmbito nacional, o mercado de trabalho superaquecido combinado com uma significativa expansão de estímulos fiscais restringem a margem de manobra do Banco Central, de acordo com a TAG Investimentos. Isso resulta na manutenção de taxas de juros restritivas para tentar controlar o ímpeto do consumo e estabilizar a inflação.
O retorno da previsibilidade no mercado de renda fixa
Com a Selic solidificada em patamares mais altos, a revisão das carteiras de investimento pode proporcionar bons rendimentos com segurança na renda fixa. Aqueles que optaram por assumir riscos no início do ano, apostando na queda dos juros, precisam reavaliar sua estratégia.
“Penso que não é sensato correr o risco de um investimento em renda variável com perspectiva de retorno de 15% ao ano, quando existem títulos prefixados soberanos pagando 14% ao ano”, afirma Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Para Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP, a palavra-chave é prudência. “Não invente, mantenha o básico que funciona. Avalie seu conforto; se a oscilação de seus fundos está gerando ansiedade, é um sinal de que você assumiu mais riscos do que deveria. Verifique se seu rendimento atual está vencendo a inflação. Caso contrário, seu dinheiro está crescendo no papel, mas perdendo poder de compra na vida real”, afirma.
Estratégias de investimento com a Selic em 14%
Frente às incertezas, a seleção do indicador correto e a diversificação são cruciais para a sobrevivência da carteira de investimentos.
Os investimentos pós-fixados, com rentabilidade atrelada ao CDI/Selic, devem compor a base estratégica das carteiras para reserva de liquidez, combinando retorno elevado com menor volatilidade, conforme recomendado pela XP Research. Para o curto prazo, Patzlaff sugere focar no Tesouro Selic, fundos DI com taxa de administração de até 0,50% ao ano e CDBs com liquidez diária — desde que ofereçam retorno acima de 100% do CDI, sendo 110% considerado o padrão de excelência.
Os investimentos indexados à inflação (IPCA+) se tornaram atrativos e são uma defesa patrimonial, refletindo um nível historicamente vantajoso em meio à reavaliação das taxas reais de juros. A TAG Investimentos recomenda priorizar a proteção com títulos públicos e títulos de crédito privado de empresas sólidas que ofereçam juros reais de 7% ou mais, de preferência isentos de Imposto de Renda. Por outro lado, a XP Research sugere evitar prazos longos, optando por prazos curtos e intermediários.
Quanto aos investimentos prefixados, é aconselhável extrema cautela. A Azimut Brasil Wealth Management reduziu suas posições de forma estrutural nessas taxas, dadas as condições menos favoráveis. A TAG Investimentos alerta que a curva prefixada de longo prazo já considera taxas próximas a 14% para vencimentos a partir de 2030, apresentando um prêmio de risco significativo. Tanto as gestoras quanto Bruno Perri concordam que a alocação em investimentos prefixados deve se concentrar apenas em prazos curtos (dois a três anos), representando uma parcela pequena da carteira.
Para aqueles que possuem investimentos prefixados antigos, Patzlaff recomenda calcular o juro real: a rentabilidade acordada menos a inflação atual. Antes de vender antecipadamente, é aconselhável simular a operação no Tesouro Direto. “Se o valor líquido que você receberá agora for consideravelmente menor do que o valor investido, geralmente é mais vantajoso manter até o vencimento. Vender neste momento significa realizar prejuízo”, explica o planejador financeiro.
Crédito Privado: Oportunidades com rigor na seleção
O segmento de crédito corporativo passou por ajustes no semestre. A ampliação dos spreads (prêmio de risco) resultou em uma marcação negativa em alguns fundos, conforme apontado pela XP, devido a eventos específicos, como os planos de recuperação extrajudicial da Raízen — que propuseram a conversão de 45% da dívida em ações a R$ 0,25 — e as negociações para descontos expressivos na dívida do GPA.
Apesar do impacto no mercado, a XP avalia que a expansão dos spreads foi predominantemente um ajuste técnico, relacionado a retiradas de capital, e não a uma deterioração generalizada da qualidade de crédito das empresas brasileiras. O cenário oferece oportunidades de entrada atrativas, contudo, requer alta seletividade, evitando emissores de menor qualidade, priorizando empresas sólidas e respeitando sempre o limite de garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), destaca Patzlaff.
Para investidores pessoa física, é crucial não se deixar levar apenas pelo valor nominal da rentabilidade. “Avalie se seu rendimento atual está superando a inflação, caso contrário, seu dinheiro está crescendo teoricamente, mas perdendo valor na prática”, resume Patzlaff.
Fonte: Bora investir

