A moeda virtual Bitcoin está sendo impactada por fatores além das notícias típicas do mercado de criptomoedas. David Lawant, principal pesquisador da Anchorage Digital, afirma que uma das principais razões para a recente queda da criptomoeda está na grande empolgação de Wall Street com inteligência artificial e as novas ofertas iniciais de ações (IPOs) nos EUA.
De acordo com o executivo, há uma competição direta por investimentos entre criptomoedas e empresas de tecnologia, principalmente aquelas envolvidas com inteligência artificial, infraestrutura de computação, energia, memória, robótica e setores relacionados. Um exemplo marcante é a SpaceX, de Elon Musk, cujo IPO se tornou um dos eventos mais aguardados nos EUA.
“Para mim, sem dúvida, o principal fator [afetando o mercado de criptomoedas] que estamos presenciando está relacionado a esses mega IPOs que estão acontecendo nos Estados Unidos”, disse Lawant em uma entrevista exclusiva ao Portal do Bitcoin. “Esses IPOs têm proporções enormes e acabam absorvendo uma grande quantidade de capital.”
A SpaceX precificou suas ações em US$ 135 cada, levantando US$ 75 bilhões e avaliando a empresa em cerca de US$ 1,77 trilhão, tornando-se o maior IPO da história dos EUA. A demanda pela oferta superou em várias vezes a quantidade disponível, demonstrando o intenso interesse dos investidores por empresas associadas à próxima onda de desenvolvimento tecnológico.
Esses eventos têm impacto no mercado de criptomoedas, pois os investidores precisam reservar capital para participar dessas ofertas. Parte desse capital pode ser realocado de ativos líquidos, como Bitcoin, ETFs de criptomoedas e ações de empresas do ramo. Este movimento acontece em um momento em que os ETFs de Bitcoin nos EUA começaram a registrar saídas significativas, enfraquecendo uma das principais fontes de demanda institucional que impulsionaram o aumento do ativo nos ciclos anteriores.
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Lawant destaca que a pressão de vendas recente começou de forma evidente em plataformas americanas, especialmente na Coinbase, antes de se espalhar para exchanges globais como a Binance. Ele acredita que esse padrão reforça a ideia de que o fluxo negativo é em grande parte originado nos EUA, envolvendo investidores individuais, ETFs e ajustes nas carteiras por parte dos investidores.
“É incomum a Coinbase liderar tanto em pressão de compra quanto de venda”, menciona. “Tudo isso me indica que há uma componente significativo do fluxo americano. Investidores individuais americanos, ETFs americanos, que, na minha opinião, estão exercendo forte influência sobre o preço.”
Inteligência Artificial se destaca na disputa por liquidez
Lawant argumenta que a recente queda do Bitcoin não deve ser interpretada apenas como um problema específico dessa criptomoeda. Segundo ele, o cenário atual representa uma realocação de capital para novas ações de tecnologia em um momento em que a inteligência artificial se tornou o foco principal do mercado.
Na visão de Lawant, os recursos financeiros que antes poderiam fluir para o Bitcoin e outras criptomoedas agora estão sendo direcionados para empresas envolvidas no ecossistema de inteligência artificial. Ele menciona não apenas empresas de desenvolvimento de IA, mas também aquelas que fornecem a infraestrutura necessária para sustentar esse setor, como fabricantes de chips e servidores, empresas de memória para centros de dados, provedoras de energia para essas operações e até companhias relacionadas à robótica.
“Acredito que o tema principal continua sendo a inteligência artificial e tudo o que a envolve”, declara. “Seja a própria inteligência artificial, capacidade de processamento, memória, energia ou até mesmo robótica. São setores que continuam em alta e despertando interesse dos investidores.”
A SpaceX é o exemplo mais proeminente, porém não o único. O mercado também aguarda com expectativa possíveis ofertas de empresas como Anthropic e OpenAI, duas das mais importantes na corrida global da inteligência artificial. Relatos recentes sugerem que a OpenAI almeja uma avaliação que pode atingir US$ 1 trilhão em uma futura abertura de capital, enquanto a Anthropic também é vista como uma candidata para uma oferta substancial.
Esse panorama cria uma sequência de eventos capazes de atrair liquidez. Para Lawant, a incerteza reside no momento em que essa realocação de capital chegará ao fim. A empolgação com a inteligência artificial pode perdurar, e as IPOs dessas empresas podem resultar não apenas em uma alta demanda inicial, mas também em meses de ajustes entre oferta e procura após o IPO.
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No caso da SpaceX, o executivo compara a estrutura da oferta a um modelo comum no universo das criptomoedas: alta avaliação totalmente diluída (FDV) e baixa quantidade inicial de ações em circulação. Em resumo, há uma grande demanda concentrada em um volume relativamente restrito de ações disponíveis inicialmente.
“O IPO da SpaceX segue um modelo semelhante ao de alta FDV e baixo float, como costumava ocorrer nas emissões de criptomoedas”, observa. Segundo ele, o processo não se encerra no dia da estreia. Com o tempo, mais ações podem ser liberadas no mercado, prolongando a competição por capital e mantendo o foco dos investidores no setor de inteligência artificial por meses.
A consequência para o Bitcoin é que a moeda fica temporariamente em segundo plano. Em ocasiões anteriores, a criptomoeda se beneficiou de fluxos de liquidez, expectativas de ETFs, expansão monetária e apetite por risco. Contudo, agora, segundo Lawant, o mercado está direcionando seu olhar para outra direção.
“A situação do Bitcoin e das criptomoedas em geral já passou por diversos ciclos de popularidade e impopularidade”, destaca. “Atualmente, acredito que estamos em um período de menor popularidade e, com certeza, as criptomoedas são agora uma contraposta.”
O caminho para o Bitcoin retornar à evidência
Apesar das pressões de curto prazo, Lawant não considera a viabilidade do investimento em Bitcoin comprometida. Ele ressalta que a criptomoeda enfrentou ciclos nos quais perdeu protagonismo para narrativas mais fortes no mercado convencional, porém esses movimentos tendem a se reverter quando o capital volta a buscar oportunidades em outros ativos.
“Isso já ocorreu diversas vezes e esses ciclos de mercado tendem a se repetir”, observa. “E, especialmente no caso do Bitcoin, acredito que a tese de investimento permanece totalmente intacta.”
O executivo também destaca que o Bitcoin muitas vezes atua como um indicador antecipado de mudanças na liquidez global. Como não gera fluxo de caixa e é negociado 24 horas por dia, o ativo tende a reagir rapidamente a alterações no apetite por risco. Nesse sentido, a queda atual pode indicar antes de outros mercados que a liquidez está se tornando mais seletiva.
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“O que estamos testemunhando no mercado do Bitcoin talvez seja algo que veremos se desenrolar no mercado de ações daqui a dois, três, quatro meses”, sugere.
Para que o Bitcoin inicie um processo de recuperação consistente, Lawant destaca dois fatores principais. O primeiro é obter mais clareza sobre a “realocação de capital” causada pelos mega IPOs de inteligência artificial. O segundo é a estabilização do cenário macroeconômico, incluindo taxas de juros, inflação, geopolítica e a situação política nos EUA.
“Para entrarmos em um ciclo sustentável de alta, precisamos, primeiramente, ter visibilidade sobre essa realocação de capital vinda desses outros setores”, destaca. “Não necessariamente precisamos chegar ao fim, mas é essencial termos uma visão de quando isso irá terminar.”
Enquanto isso não ocorre, é provável que o mercado de criptomoedas continue competindo por atenção com uma das narrativas mais poderosas de Wall Street. A diferença é que, desta vez, a concorrência não está vindo de outra criptomoeda ou blockchain, mas sim de empresas de inteligência artificial avaliadas em centenas de bilhões — ou até trilhões — de dólares.
Para Lawant, isso não significa que o Bitcoin perdeu sua relevância. Indica apenas que, neste momento, o capital disponível está optando por outro destino. E, em mercados impulsionados pela liquidez, essa escolha pode ser suficiente para explicar por que a maior criptomoeda do mundo ficou à margem enquanto Wall Street corre para adquirir a próxima promessa da inteligência artificial.
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Fonte: Portal do Bitcoin

