A expansão do mercado de moedas digitais no Brasil está chamando não somente a atenção de investidores e organizações, mas também despertando interesse de redes internacionais de lavagem de capitais. Conforme documento apresentado pela Chainalysis, grupos associados ao tráfico de drogas, violadores de sanções internacionais e redes chinesas especializadas em lavagem de dinheiro encontraram espaço no principal mercado de criptomoedas da América Latina.
Durante o período entre julho de 2024 e junho de 2025, o Brasil registrou aproximadamente US$ 318 bilhões em transações on-chain, representando cerca de um terço de toda a movimentação de criptomoedas na região latino-americana. Para a Chainalysis, a magnitude do mercado brasileiro, aliada ao avanço das fintechs, à adesão aos serviços financeiros digitais e à demanda por stablecoins vinculadas ao dólar, tornaram o país um alvo atrativo para organizações criminosas de alcance global.
Conforme a empresa especializada em análise blockchain, três segmentos — redes chinesas de lavagem de dinheiro, entidades russas e grupos envolvidos com o tráfico de entorpecentes — corresponderam a mais de 50% dos fluxos ilícitos identificados em exchanges brasileiras selecionadas durante o ano de 2025.
O documento ressalta que a atividade criminosa envolvendo criptomoedas não reconhece fronteiras e as mesmas redes que lideram a lavagem de dinheiro utilizando ativos digitais a nível global também estão presentes nos registros das casas de câmbio brasileiras. Essa constatação surge em um momento crucial para o país, que passou a operar sob um novo regime normativo destinado a prestadores de serviços de ativos virtuais.
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Cartéis, Rússia e organizações chinesas
A Chainalysis constatou que os fluxos ilícitos direcionados às exchanges brasileiras apresentaram mudanças em seu perfil entre 2023 e 2025. No ano de 2023, conforme o relatório, os valores ilícitos recebidos eram mais diversificados entre distintos tipos de atividades criminosas. Por outro lado, nos anos de 2024 e 2025, a lavagem de dinheiro associada aos cartéis passou a se destacar como a principal categoria identificada.

Essa mudança é atribuída pela Chainalysis à posição geográfica do Brasil, tanto como corredor de tráfico de drogas na América do Sul quanto como mercado consumidor. A empresa também menciona a atividade de facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), no uso de criptomoedas em transações financeiras.
Outro grupo destacado são as conhecidas redes chinesas de lavagem de dinheiro, identificadas pela sigla CMLNs. De acordo com a Chainalysis, essas redes funcionam como intermediárias para organizações criminosas, incluindo grupos envolvidos com tráfico de substâncias ilícitas, golpes e até entidades governamentais. Globalmente, estima-se que elas representem cerca de 20% do ecossistema conhecido de lavagem de dinheiro on-chain.

O relatório também aponta a presença de fluxos relacionados à Rússia, incluindo entidades sujeitas a sanções internacionais. Conforme a Chainalysis, essa evolução reflete uma tendência mundial observada após as restrições impostas aos canais financeiros convencionais contra entidades russas desde a invasão da Ucrânia em 2022. Dessa forma, criptomoedas e mercados emergentes com infraestrutura digital em expansão passaram a ser utilizados como alternativas.
Além desses grupos, a empresa identificou no Brasil a presença de serviços de garantia, que atuam como uma forma de depósito em transações fraudulentas e vinculadas a organizações criminosas. Para a Chainalysis, essa descoberta sugere que o mercado local está se integrando a redes criminosas mais abrangentes.
Apesar dos alertas, a empresa ressalta que os dados não implicam em uma acusação à conformidade de exchanges específicas. A análise aponta que redes criminosas internacionais costumam utilizar diferentes pontos de entrada e saída em diversos países, e que o tamanho e a liquidez do mercado brasileiro o tornam mais vulnerável a esse tipo de atividade.
Desafios da regulamentação
O documento também enfatiza que o surgimento dessas ameaças ocorre em um momento em que o Brasil está implementando seu novo arcabouço regulatório para o setor de criptomoedas. As diretrizes do Banco Central para prestadores de serviços de ativos virtuais entraram em vigor em 2 de fevereiro de 2026, com obrigações de comunicação vigentes a partir de 4 de maio e prazo para autorização das empresas já ativas até 29 de outubro.
As regras estabelecem um regime de autorização para corretoras, custodiantes e intermediários de ativos virtuais, bem como incluem medidas de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. Também abrangem a aplicação da Regra de Viagem, norma internacional que requer a troca de informações sobre remetentes e destinatários em determinadas transferências.
Para a Chainalysis, o novo marco regulatório brasileiro enfrentará seu primeiro grande teste na capacidade das exchanges, reguladores e autoridades de identificarem e interromperem os fluxos associados a cartéis, violações de sanções e redes internacionais de lavagem.
O relatório sugere que o problema pode ser abordado de forma direcionada. Embora o número de endereços de depósito envolvidos em atividades ilícitas tenha variado entre cerca de 550 e 950 por trimestre entre 2023 e o início de 2026, os cinco endereços mais suscetíveis concentraram entre 75% e 90% do volume ilegal recebido em cada período. Em março de 2026, aproximadamente 80% desses valores estavam centralizados em apenas cinco endereços.
Conforme a empresa, essa concentração indica que, apesar da ampla exposição, uma parcela significativa dos recursos ilícitos pode ser rastreada até poucos pontos de entrada. Isso abre caminho para ações mais eficazes de vigilância, comunicação e investigação.
A Chainalysis destaca o Brasil entre as jurisdições mais proativas na regulamentação de criptomoedas, podendo tornar-se um modelo para a região. Ao mesmo tempo, o país terá que demonstrar que seu novo arcabouço normativo é capaz de acompanhar a sofisticada atuação de redes criminosas globais que já se utilizam de ativos digitais para lavagem de capitais, movimentação de recursos do tráfico e evasão de sanções.
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Fonte: Portal do Bitcoin

