O perigo da computação quântica não é mais apenas objeto de discussões teóricas no ambiente do Bitcoin, mas está motivando uma competição por respostas técnicas, ideias de governança e camadas adicionais de proteção.
Essa movimentação tem ganhado força à medida que estudos recentes e grandes corporações de tecnologia revisam para baixo as estimativas de recursos necessários para quebrar a segurança criptográfica da rede.
O problema central é a possibilidade de que computadores quânticos, no futuro, possam deduzir chaves privadas a partir de chaves públicas expostas na blockchain, comprometendo assim a criptografia que hoje defende o Bitcoin.
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Apesar da rede da criptomoeda ter permanecido intacta por 16 anos, pesquisadores e programadores já estão debatendo maneiras de manter essa segurança em um contexto tecnológico em constante evolução.
Relatórios recentes do Google Research intensificaram esse debate ao indicar que a criptografia de curva elíptica — que é a base das carteiras e transações do Bitcoin — pode ser muito mais fácil de ser quebrada do que se pensava anteriormente.
Diante disso, a reação da comunidade está começando a se articular em diferentes frentes. No centro do protocolo, iniciativas como o BIP-361 propõem alterações graduais e subsequentemente mais rigorosas no uso de endereços considerados frágeis.
O plano inclui uma série de etapas, desde a limitação de novos depósitos em endereços antigos até, eventualmente, a desativação de modelos antigos de assinatura como ECDSA e Schnorr. Em paralelo, estimativas indicam que uma parte considerável dos bitcoins em circulação teve suas chaves públicas expostas, o que aumenta a urgência do tema.
BIP-360
O BIP-360 propõe uma mudança estrutural no formato dos endereços do Bitcoin como passo inicial em direção a uma arquitetura resistente à computação quântica. A proposta introduz um novo tipo de transação denominado Pay-to-Merkle-Root (P2MR), que possui funcionalidades parecidas com o atual Pay-to-Taproot (P2TR), mas elimina um dos principais pontos fracos do sistema: a exploração de chaves expostas em possíveis ataques quânticos.
Na prática, o P2MR foi projetado para manter a compatibilidade com tecnologias já cruciais para o crescimento do Bitcoin — como Lightning Network, BitVM e outras soluções de segunda camada — ao mesmo tempo em que reduz a vulnerabilidade a ataques baseados na dedução de chaves públicas. O intuito é criar um tipo de endereço nativo com script que esteja pronto para resistir a ataques prolongados, considerados os mais perigosos no cenário quântico.
Os proponentes da proposta argumentam que esse modelo serve como uma camada de defesa inicial relativamente discreta, especialmente por não exigir uma ruptura imediata com a infraestrutura atual da rede. Em vez disso, ele estabelece um caminho de transição que pode ser adotado de forma progressiva por carteiras, exchanges e serviços, servindo como base para futuras implementações de assinaturas pós-quânticas mais robustas.
BIP-361
Por sua vez, o BIP-361 representa uma abordagem mais incisiva e direta em relação ao problema. A proposta sugere restringir o uso de endereços antigos e vulneráveis, especialmente aqueles que já tiveram suas chaves públicas expostas na blockchain.
A ideia consiste em uma transição em etapas, condicionada à adoção de novos formatos de endereços imunes à computação quântica. Inicialmente, estaria proibido enviar novos fundos para endereços vulneráveis, o que provavelmente aceleraria a migração para alternativas mais seguras.
Posteriormente, em uma data predefinida, transações baseadas nos padrões de assinatura atuais, como ECDSA e Schnorr, deixariam de ser reconhecidas, o que, na prática, impediria a transferência de recursos mantidos em tais formatos antigos.
Por fim, há uma etapa futura, ainda em análise, que envolveria a recuperação desses fundos por meio de mecanismos criptográficos associados a frases-senha.
Meio termo
Além das propostas oficiais em debate por meio dos BIPs (Propostas de Melhoria do Bitcoin), parte da comunidade está considerando opções mais inovadoras em fóruns técnicos e espaços de desenvolvimento abertos, como Reddit e GitHub.
Nessas conversas, cresce a ideia de mecanismos intermediários de proteção contra ameaças quânticas, que busquem evitar tanto o congelamento abrupto de fundos quanto a exposição desprotegida de moedas vulneráveis.
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Uma dessas abordagens sugere reduzir gradativamente a quantidade de bitcoins que podem ser transferidos a partir de endereços considerados vulneráveis por bloco, agindo como um tipo de “limitador de fluxo” em caso de real perigo quântico. A estratégia visa minimizar o impacto de um possível ataque em larga escala sem prejudicar drasticamente a liquidez ou o funcionamento econômico da rede.
Esse tipo de proposta é visto como uma abordagem intermediária no debate: de um lado, medidas mais severas como o bloqueio de endereços antigos; de outro, a manutenção do status quo até que a ameaça se torne concreta. Embora essas ideias ainda não tenham sido formalizadas em BIPs, elas ajudam a explorar as possíveis soluções em um contexto onde a rapidez de reação pode ser crucial.
Soluções além do protocolo
Além das propostas de alteração no cerne do Bitcoin, parte da comunidade está apostando em soluções externas ao protocolo. Essas estratégias utilizam redes de segunda camada e carteiras especializadas para introduzir segurança quântica sem modificar a blockchain principal.
Iniciativas como carteiras pós-quânticas já testam modelos de assinatura diferentes, como o WOTS+, que não dependem de curvas elípticas e são considerados mais resilientes a futuros ataques. Essas soluções operam fora da camada principal do Bitcoin, processando transações em sistemas complementares antes de registrá-las na rede principal.
O objetivo desses projetos é acelerar a adoção de segurança pós-quântica. Apesar de não resolverem o problema central, oferecem uma camada adicional de proteção que não está sujeita ao longo processo de consenso necessário para mudanças no protocolo do Bitcoin, que tradicionalmente pode levar anos.
Satoshi Nakamoto e a ameaça quântica
A discussão atual também lembra observações feitas por Satoshi Nakamoto nos primeiros anos do Bitcoin. Em 2010, ao abordar a possibilidade de computadores quânticos prejudicarem as assinaturas digitais, ele reconheceu que uma quebra súbita na criptografia poderia comprometer toda a rede.
Porém, Satoshi sugeriu que, se a evolução tecnológica ocorresse de maneira gradual, seria factível fazer uma transição segura para algoritmos mais robustos. A proposta envolveria a atualização do software e a reassinatura dos fundos pelos usuários, migrando os bitcoins para novos padrões de segurança.
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Essa perspectiva se tornou central no debate atual: o risco não está apenas na capacidade futura dos computadores quânticos, mas na velocidade com que essa capacidade pode se tornar realidade — e na capacidade da rede de se adaptar antes que isso ocorra.
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Fonte: Portal do Bitcoin

