Identificada como a pioneira brasileira investidora na bolsa de valores, Eufrasia Teixeira Leite aplicou em cinco continentes, incluindo mercados acionários de Paris, Nova Iorque, Londres, Rio de Janeiro e São Paulo, além de possuir investimentos no setor imobiliário. Nascida em 1850, na cidade de Vassouras, durante o apogeu do Ciclo do Café, mudou-se para Paris em 1873, juntamente com sua irmã, e iniciou sua jornada como investidora em 1876. Em 1884, aos 34 anos, Eufrasia fez sua primeira visita ao Brasil, porém somente retornou definitivamente quando já estava enferma, estabelecendo-se no Rio de Janeiro.
Falecendo em 1930, aos 80 anos, em Vassouras, a investidora deixou um legado de inovação e êxito nos investimentos. Multiplicou sua fortuna em um período no qual, por ser mulher, não tinha permissão para operar diretamente, realizando suas transações por meio de intermediários. A alocação de sua carteira era resultado de pesquisas aprofundadas sobre os ativos.
Seu portfólio era concentrado em ciência e tecnologia, em áreas como o setor de energia, porém também investiu em propriedades ao longo de sua vida, como o Hotel Particulier em Paris, com terreno de mais de 695 metros de frente e 2.000 metros de profundidade, composto por quatro edifícios. Além disso, adquiriu um terreno no Rio de Janeiro que foi subdividido, localizado na Rua 4 de Setembro, cruzamento com a Travessa Santa Leocádia, em Copacabana. Ao todo, vinte e sete lotes foram comercializados.
A vida de Eufrasia foi meticulosamente pesquisada por Mariana Jacinto Ribeiro, analista financeira (CNPI) e pesquisadora, com mais de dez anos de experiência no mercado financeiro e autora de obras nas áreas de economia e história, com quem o Clube FII dialogou para discutir o tema em referência ao Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março.
A especialista mencionou que a pioneira investidora possuía em seu portfólio ações em indústrias têxteis, farmacêuticas e de tecnologia. No Brasil, destacavam-se empresas como a Companhia de Fiação e Tecidos Aliança, Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira, Cottoniere Belga Brasileira, e as Cervejarias Brahma e Antarctica. No exterior, seu portfólio incluía ações da Liniere Cantoine, da Companhia de Seda Antuérpia, Nestlé & Anglo-Swiss, Unilever Siemens e Bunge.
Descubra mais sobre a trajetória da primeira investidora:
Qual era o cenário em que ela atuava? Como se deu seu início no universo dos investimentos?
Mariana Jacinto Ribeiro: Ela veio ao mundo em 1850 em Vassouras, proveniente de uma família tradicional. Seu pai era advogado, graduado na terceira turma da Universidade de São Paulo (USP). Da parte paterna, descendia da família Teixeira Leite; da parte materna, dos Correa e Castro, com inclinação mais voltada para atividades rurais.
Ela tinha uma irmã cinco anos mais velha. Após a perda dos pais — com um ano de diferença entre os falecimentos —, quando tinha entre 22 e 23 anos, as duas decidiram aventurar-se pela Europa, em agosto de 1873. Embora inicialmente planejassem uma estadia temporária, acabaram se estabelecendo de forma permanente no exterior, levando consigo a herança familiar.
Foi nesse contexto que, conforme arquivos disponíveis, iniciou sua trajetória como investidora. Um tio trabalhava em uma empresa brasileira com atividades na França. A partir desse ponto, investiu por aproximadamente cinco décadas. Começou em Paris, expandiu para Londres, Nova Iorque e, progressivamente, passou a atuar em mercados nos cinco continentes.
Quais eram os principais investimentos dela? Atuava somente no exterior?
Ribeiro: Sua carteira era altamente diversificada — o que era notável para a época. Ao falecer em 1930, sua carteira confirmada contava com 259 ativos. Em muitos casos, devido às empresas do século XIX, não é possível identificar com precisão os setores de atuação. Ainda assim, foi possível rastrear todos esses investimentos.
Ela investia tanto em renda fixa quanto em renda variável. Na renda fixa, detinha títulos soberanos de países como o Uruguai, além de títulos municipais — prática comum naquela época —, incluindo cidades como Manaus. Também possuía títulos de outros países, como o Vietnã.
Quanto à renda variável, estava fortemente presente em instituições bancárias, mineração, petróleo e setores tidos como inovadores naquela era, como distribuição de energia elétrica, especialmente nos Estados Unidos. O setor ferroviário já estava mais consolidado.
Destaca-se que ela também investiu no mercado imobiliário no Brasil: comprou um terreno em Copacabana, no Rio de Janeiro, e realizou uma subdivisão com 27 lotes. Por ocasião de seu falecimento, alguns ainda não haviam sido vendidos.
De que forma ela conduzia suas atividades em um período no qual as mulheres enfrentavam diversas limitações legais?
Ribeiro: Naquela época, as mulheres não tinham permissão para serem proprietárias de empresas no Brasil. O direito de voto feminino foi concedido somente em 1932, e a abertura de contas bancárias por mulheres ocorreu décadas depois, nos anos 1962.
Mesmo atuando em várias bolsas internacionais, ela não podia executar diretamente as ordens de compra e venda. Para isso, contava com um intermediário: Albert Guggenheim, um alemão naturalizado francês, encarregado de efetuar as operações em seu nome.
É notável que existem várias correspondências entre eles, arquivadas, nas quais ela delineava claramente as decisões a serem tomadas em relação aos investimentos. Ou seja, as escolhas eram dela.
Essa situação contrasta, por exemplo, com a de Victoria Woodhull, que inicialmente cogitei ter sido a primeira mulher investidora. Ao analisar as correspondências dela no museu de Nova Iorque, percebi que, em muitas ocasiões, as decisões eram mais influenciadas por seus parceiros do que por ela mesma. Por isso, optei por focar a pesquisa em Eufrasia Teixeira Leite, que se tornou o tema principal de meu mestrado na USP.
Alguns casos de empresas presentes em sua carteira?
Ribeiro: Há registros de investimento em empresas que continuam ativas até hoje, como a Nestlé e a Rio Tinto. Isso nos leva a refletir sobre o potencial de valorização caso esses investimentos tivessem sido mantidos por mais um século.
No momento de seu falecimento, ela destinou toda sua fortuna à cidade de Vassouras, com a instrução de que os recursos fossem aplicados em dívida pública para gerar renda e apoiar hospitais e escolas. No entanto, o inventário levou 22 anos para ser finalizado, devido à complexidade da repatriação de recursos de diversos países — algo extremamente desafiador para a época.
Décadas mais tarde, na década de 1980, grande parte da fortuna foi perdida. Atualmente, o Ministério Público segue investigando o que restou, incluindo imóveis históricos no centro da cidade.
Apesar dos contratempos, é admirável a modernidade de sua visão. Ela antecipou conceitos que atualmente associamos a fundos patrimoniais e filantropia estruturada — algo que naquela época simplesmente não existia.
Que ensinamentos a trajetória dela proporciona?
Ribeiro: O interessante é que ela mesclava renda fixa e variável. Detinha ações em várias áreas — de ferrovias e energia elétrica a tecnologias emergentes da época, como hidrelétricas. O leque era amplo.
Naquele momento, não havia requisitos padronizados de divulgação de resultados, nem relatórios contábeis uniformizados, muito menos gráficos como os que temos hoje. As ferramentas de análise eram distintas.
Apesar disso, nota-se um viés de longo prazo evidente. Há registros de ações mantidas por mais de 20 anos. Durante a crise de 1929, por exemplo, sustentou posições relevantes. Apesar de o conceito de “comprar e manter” não ser formal naquela época, sua postura sugere uma estratégia similar. Curiosamente, Warren Buffett nasceu em 1930, mesmo ano de seu falecimento, em setembro.
*Texto originalmente publicado em ClubeFII, em colaboração com B3 Bora Investir
Fonte: Bora investir

