A Criptomoeda Digital enfrenta um dos momentos mais sensíveis dos meses recentes, sob pressão de uma mistura de fatores macroeconômicos, transferência de capital para grandes ofertas de ações nos Estados Unidos e transformações na própria estrutura do mercado de criptomoedas. Segundo David Lawant, líder de pesquisas da Anchorage Digital, a queda recente não pode ser atribuída a apenas um motivo.
Lawant declarou em uma entrevista exclusiva ao Portal do Bitcoin que quando se observa esse tipo de movimentação, raramente se trata de um único fator. Normalmente, diversos elementos influenciam no processo de definição de preços.
Para o executivo, o principal fator de pressão atualmente não está necessariamente no mercado de criptomoedas, mas sim na competição por capital com grandes Ofertas Públicas Iniciais (IPOs) nos EUA. Ele menciona especialmente a oferta da SpaceX e outras empresas relacionadas à inteligência artificial, que estão retirando liquidez de diferentes categorias de ativos.
Segundo Lawant, a influência dessas operações é tão significativa que chegou a levar índices como Nasdaq e Russell a revisarem suas políticas de inclusão de novas empresas. Para ele, isso demonstra que o impacto vai além do Bitcoin e está afetando decisões cruciais em várias áreas do mercado financeiro.
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A situação macroeconômica continua sendo um fator relevante. Lawant afirma que o mercado está passando por uma “rotação de temas”, onde questões geopolíticas, comerciais, monetárias, inflacionárias ou de crescimento econômico dominam os preços em momentos distintos. Recentemente, as tensões geopolíticas e o valor do petróleo estiveram no centro das atenções, mas o mercado também passou a operar de forma mais cautelosa em relação ao risco.
Ele destaca que a conexão entre Bitcoin e índices como S&P 500 e Nasdaq voltou a ser consideravelmente forte em janelas de 60 a 90 dias, indicando que o cenário macroeconômico continua sendo um fator significativo na definição do preço da criptomoeda.
Pressão Originária dos EUA
Além dos aspectos macroeconômicos, Lawant aponta uma alteração estrutural no mercado de Bitcoin. Segundo ele, os canais de negociação se tornaram consideravelmente mais complexos nos últimos dois anos, com uma maior presença de ETFs, mercados tradicionais e derivativos.
O mercado de opções, por exemplo, expandiu aproximadamente dez vezes nos últimos quatro anos em termos de contratos em aberto, de acordo com o executivo. Isso tornou a interpretação do mercado mais desafiadora do que no passado. “Atualmente, esse mercado é muito mais intrincado, com múltiplas camadas. Os derivativos são mais elaborados, então é um mercado um tanto mais intricado de se compreender”, explicou.
Para tentar identificar a origem da pressão de vendas, Lawant acompanha indicadores como o CVD (Delta de Volume Cumulativo) por exchange, que avalia a pressão líquida de compra e venda em diversas plataformas. Ele destaca que a queda recente teve início com maior intensidade nas exchanges americanas, especialmente na Coinbase, antes de se espalhar para outras plataformas.
“É incomum a Coinbase liderar, tanto em pressão de compra quanto de venda, pois a Coinbase é bem menor que a Binance. O fato de a Coinbase estar liderando a pressão de venda é algo bastante atípico”, afirmou. “Tudo isso sugere que há uma influência considerável do fluxo americano. Clientes americanos, ETFs americanos, que, na minha opinião, estão exercendo uma pressão significativa no preço”, analisou.
Embora a venda de 32 bitcoins pela Strategy, empresa de Michael Saylor, tenha sido notada pelo mercado, Lawant enxerga esse evento como mais simbólico do que determinante para a queda. Para ele, outros fatores têm muito mais impacto e estão mais influenciando o preço. “Acredito que a queda não ocorreu devido à Strategy. Esses outros elementos têm mais peso e estão mais influenciando o preço”, afirmou.
No entanto, ele reconhece que a venda pode ter afetado a percepção em relação à empresa, conhecida por sua estratégia de acumulação de Bitcoin. Na visão de Lawant, a mudança pode ser interpretada como uma transição para uma gestão mais institucional e sofisticada da tesouraria.
“É uma abordagem muito mais sofisticada e talvez você possa vender em determinado momento, talvez por questões fiscais, talvez literalmente como um retrocesso para, em seguida, avançar dois passos”, sugeriu.
Segundo o executivo, a queda inicial após a notícia da Strategy pode ter sido afetada pela mensagem que a venda transmitiu para o futuro. Porém, o movimento mais intenso, que levou o Bitcoin de cerca de US$ 70 mil para abaixo dos US$ 60 mil, parece estar mais relacionado ao ambiente macroeconômico e à transferência de capital.
Até qual ponto o Bitcoin pode declinar
Para Lawant, a região de US$ 60 mil é crucial no momento para o Bitcoin. Ele destaca que ao se aproximar desse nível, o mercado começou a mostrar um aumento da pressão de compra, inclusive entre investidores institucionais.
Isso sugere que o Bitcoin ainda pode tentar se manter dentro da faixa na qual vem sendo negociado nos últimos meses. De acordo com o executivo, muitos investidores institucionais estavam operando dentro de uma faixa entre US$ 60 mil e US$ 80 mil para o ativo.
“Se você conversasse com qualquer investidor institucional deste mercado nos últimos nove meses, todos diriam que o Bitcoin ficaria entre 60 e 80 mil, e basicamente foi o que aconteceu”, observou. “Ainda acredito que permaneceremos nessa faixa, porém, obviamente estamos testando o limite inferior dela.”, completou.
O risco, de acordo com ele, é perder definitivamente a região entre US$ 59 mil e US$ 58 mil. Caso isso ocorra, o mercado poderá entrar em uma situação próxima à capitulação, com liquidações forçadas e aceleração da queda. “Se perdermos esse nível de US$ 59, 58 mil, poderemos entrar em um cenário mais próximo da capitulação. Não é a perspectiva atual, mas é por isso que precisamos monitorar esse nível de perto”, avisou.
Lawant acredita que há uma alavancagem considerável baseada na ideia de que o Bitcoin permanecerá dentro da faixa recente. Se essa faixa for rompida para baixo, essas posições poderão ser liquidadas, intensificando a pressão de venda.
O caminho para a recuperação do Bitcoin
Para uma recuperação mais sólida, o executivo destaca dois principais pontos. O primeiro é obter maior clareza sobre a saída de capital provocada pelos grandes IPOs e pela onda de empresas relacionadas à inteligência artificial. Na visão dele, o mercado ainda não tem certeza de quando esse ciclo de captação chegará ao fim.
“Para entrarmos em um ciclo sustentável de alta, primeiro precisamos de transparência nessa drenagem de capital vinda desses diversos setores. Não necessariamente precisamos esperar o fim, mas ao menos ter uma noção de quando isso ocorrerá”, explicou.
O segundo ponto é a estabilização do cenário macroeconômico. Isso inclui a diminuição das tensões geopolíticas, maior clareza sobre questões inflacionárias e de crescimento nos Estados Unidos, compreensão sobre os próximos passos do Federal Reserve e definição de temas políticos e regulatórios relevantes para o setor de criptomoedas.
Apesar do momento desafiador, Lawant defende que a visão de longo prazo sobre o Bitcoin permanece inabalada. Para ele, a criptomoeda já passou por períodos nos quais ficou “fora de moda” em comparação com outras narrativas de mercado, mas esses ciclos tendem a se reverter.
“Atualmente, as criptomoedas são uma aposta contrária. Isso já aconteceu diversas vezes e esses ciclos de mercado tendem a mudar”, declarou. “Especificamente no caso do Bitcoin, acredito que a tese de investimento permanece completamente intacta.”
Na opinião do executivo, o Bitcoin pode estar atuando como um indicador antecipado de estresse em outros ativos de risco. Por não gerar fluxo de caixa e ser altamente sensível à liquidez e aos juros, a criptomoeda costuma reagir antes a mudanças no apetite do mercado.
“Talvez o que estamos presenciando no mercado de Bitcoin atualmente seja algo que iremos observar se desenvolver no mercado de ações daqui a dois, três, quatro meses”, previu.
Por enquanto, o cenário permanece delicado. O Bitcoin precisa defender a região de US$ 60 mil para evitar uma aceleração na queda e, ao mesmo tempo, dependerá de uma melhoria no ambiente externo para retomar uma tendência de alta mais clara. Enquanto isso não ocorre, Lawant enxerga o mercado em um estágio crítico, mas ainda dentro de uma faixa que pode ser mantida caso a pressão de compra se manifeste com vigor suficiente.
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Fonte: Portal do Bitcoin

