Com a Taxa Selic em 15% por ano e a indicação do Comitê de Política Monetária de que o ciclo de relaxamento monetário pode começar em março, os investidores já estão prevendo um novo cenário para investimentos. Em períodos de mudança na política monetária, o mercado de ações geralmente se destaca — entretanto, diferentes setores reagem de maneiras distintas.
“Com a iminente redução das taxas de juros, certos setores da bolsa têm potencial de ser mais favorecidos do que outros por essa virada de cenário. Juros menores diminuem o custo de capital, estimulam o consumo e os investimentos, tornando, de maneira geral, o mercado de ações mais atraente em comparação à renda fixa”, esclarece Robson Ferreira Jr, especialista em aplicações financeiras.
Na mesma linha, Igor Leite, planejador financeiro CFP e especialista em Investimentos, declara que o ambiente se torna mais propício para investimentos em ações à medida que a taxa básica de juros diminui. “Com a expectativa de início de um período de queda na Taxa Selic, o panorama para a Bolsa de valores brasileira se torna altamente atrativo”, explica. De acordo com ele, com taxas de juros menores, a alternativa de permanecer na renda fixa se torna menos vantajosa, o que pode direcionar parte dos investimentos para ativos de maior risco.
Para Pedro Moreira, sócio da ONE Investimentos, o efeito é abrangente. “Qualquer redução nas taxas de juros é benéfica para investimentos mais arriscados.” Ele destaca que, nesse contexto, a relação entre risco e retorno se torna mais favorável para o mercado de ações.
Embora esse movimento beneficie o mercado como um todo, refletido nos sucessivos recordes alcançados pelo Ibovespa B3 nas últimas semanas, alguns segmentos tendem a reagir de forma mais intensa. “Enquanto algumas empresas apenas acompanham a performance média do mercado, outros setores funcionam como impulsionadores significativos de rentabilidade”, resume Igor.
Varejo: crédito mais acessível estimula consumo
O setor varejista está entre os principais favorecidos em períodos de queda da Taxa Selic. “Como grande parte das receitas desse segmento provém de vendas parceladas via crédito e, com um estímulo maior dos bancos e instituições financeiras na oferta de crédito mais barato, muitos consumidores ganham mais poder de compra e ficam menos receosos ao optar por parcelamentos”, afirma Robson. Moda, eletrodomésticos, cosméticos e produtos duráveis tendem a liderar esse movimento.
Pedro Moreira reforça que esse setor tende a reagir de forma rápida em períodos de flexibilização monetária, especialmente devido à concentração de empresas com maior endividamento. “O setor varejista se beneficia significativamente, tanto pela estrutura do segmento, com empresas mais endividadas, quanto porque juros mais baixos geralmente impulsionam a atividade econômica como um todo.”
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Construção civil: crédito imobiliário e endividamento
O setor da construção civil é outro segmento diretamente afetado pela política monetária. “A lógica é semelhante à do varejo, visto que as vendas a prazo são beneficiadas por essa redução das taxas de juros”, menciona Robson. “Principalmente as empresas de incorporação, que dependem fortemente de financiamento imobiliário, passam a oferecer condições mais vantajosas de parcelamento e juros, tornando o sonho da casa própria mais acessível, por exemplo”.
Do ponto de vista financeiro, a diminuição da taxa de desconto aumenta o valor presente dos fluxos de caixa futuros, beneficiando empresas com receitas de longo prazo — uma situação comum entre empresas de incorporação e construtoras. “Para as empresas de incorporação, o custo financeiro nas construções diminui consideravelmente, mantendo as margens e melhorando a rentabilidade dos projetos”, afirma Igor.
Pedro Moreira destaca que o endividamento é um fator fundamental para explicar o desempenho mais relevante do setor nesses momentos. “A construção civil se beneficia bastante de uma política monetária mais flexível, tanto devido à estrutura das empresas em termos de endividamento quanto à natureza do negócio, que depende de financiamentos e crédito para a população.”
Small caps e setores com maior endividamento
Empresas com menor capitalização de mercado geralmente ganham destaque em momentos de redução das taxas de juros. “Neste contexto, é importante observar empresas Small Caps (companhias com menor capitalização de mercado). Ao contrário das ‘Blue Chips’ (como Vale e Petrobras), que dependem mais de commodities e do cenário global, as Small Caps estão mais focadas na economia interna. Por serem mais sensíveis às condições de crédito e apresentarem um potencial de crescimento mais acelerado, a queda das taxas de juros reduz drasticamente sua taxa de desconto no fluxo de caixa. Historicamente, quando a Taxa Selic cai, o índice de Small Caps (SMLL) tende a superar significativamente o Ibovespa”, observa Leite.
Na análise de Moreira, além do varejo e construção, outros segmentos com alto nível de endividamento também podem se destacar. Ele menciona infraestrutura e logística, além do agronegócio, que aumentou seu endividamento em um período de juros elevados e está propenso a se beneficiar da redução do custo financeiro.
Fonte: Bora investir

