O mercado financeiro observa com atenção a subida nos valores do petróleo, motivada pelas tensões relacionadas ao conflito no Oriente Médio. A situação levanta questionamentos sobre a sustentação desses níveis elevados a longo prazo e sobre a atitude que o investidor deve adotar para resguardar e rentabilizar sua carteira em meio a um cenário de incertezas globais.
A seriedade do momento é enfatizada na Carta Mensal de abril da empresa de investimentos TAG. Parafraseando as palavras de Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), o comunicado assegura que este representa “o maior incidente de segurança energética global de que se tem notícia”, que teve início em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, culminando na morte do Aiatolá Ali Khamenei e no bloqueio do Estreito de Ormuz, rota por onde transita 20% do petróleo e 20% do Gás Natural Liquefeito (GNL) que alimentam o planeta.
Conforme Bruno Cordeiro, entendido no mercado petrolífero e seus subprodutos na StoneX, trata-se do “o mais significante impacto na oferta já visto”, superando inclusive as crises dos anos 1970. O fechamento do Ormuz representa uma privação de cerca de 12 milhões de barris diários, equivalendo a 12% da oferta global, de acordo com Cordeiro.
Antes desse alvoroço geopolítico, o mercado petrolífero testemunhava um expressivo avanço na produção mundial, o que estava derrubando os preços. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) passou a restringir a extração para conter a queda, mantendo o valor do barril em aproximadamente US$ 60 no início de 2026.
Com a intensificação bélica, a balança se inclinou fortemente para a elevação da commodity. Os preços já ultrapassaram os 140 dólares por barril na semana passada, refletindo uma escassez genuína que o mercado financeiro ainda não conseguiu precificar integralmente, na apreciação de Cordeiro.
A incerteza predominante no mercado agora é: caso ocorra um cessar-fogo ou uma solução diplomática com o Irã, o preço retornará rapidamente aos níveis do início do ano?
Consequências em instalações e logística
Segundo João Daronco, analista CNPI da Suno Research, a resposta não é direta e está sujeita a diversas variáveis. Mesmo depois de uma resolução diplomática e do cessar-fogo, será necessário avaliar se o Estreito de Ormuz permanecerá fechado, quais os prejuízos das indústrias atacadas, e como ocorrerá a retomada da produção nos países da Opep. Além disso, Cordeiro salienta os desafios para reorganizar a logística e o lapso que os países consumidores teriam para reconstituir seus estoques.
Brasil como vendedor de petróleo
Em meio à toda agitação global, o Brasil está conseguindo suavizar o impacto do petróleo. Se antes dos anos 2000 a economia nacional era sensível a aumentos bruscos da commodity, a partir de 2016 houve uma mudança, de acordo com um relatório do BTG Pactual assinado pela analista Iana Ferrão, refletindo a transformação do Brasil em um exportador líquido. Conforme as projeções do BTG, em 2026, um aumento de US$ 10 no barril melhora o saldo comercial e a balança de pagamentos em aproximadamente US$ 5,9 bilhões.
Este desempenho é confirmado pelos dados mais recentes da balança comercial brasileira. A XP Macro destaca que as exportações de petróleo cru cresceram 31% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, impulsionando o setor extrativista.
O relatório aponta que o impacto do conflito traz aspectos a considerar, como a pressão sobre as importações devido aos preços mais elevados dos fertilizantes e a possível redução da demanda por exportações brasileiras (como milho, frango e algodão) por parte das regiões em guerra.
Todavia, a XP prevê que os benefícios advindos dos preços mais altos do petróleo superam os fatores negativos, representando cerca de 13% do total das exportações.
Efeitos na inflação e na Selic
Para o investidor individual e para a economia interna em geral, as consequências requerem atenção os efeitos secundários. Apesar dos ganhos na balança comercial do Brasil, Daronco alerta para os reflexos na inflação. Com a Petrobras repassando a maior parte dos aumentos e o governo buscando conter a elevação através da diminuição de impostos, o analista da Suno alega que é factível ocorrer um repique inflacionário, o que pode frear a trajetória de reduções na taxa de juros, a Selic, impactando na economia real e nos investimentos.
+ Ativos de proteção: qual é o papel na carteira – e como acessá-los
Cautela e variedade nas aplicações
Frente a esse cenário de ganhos estruturais e riscos inflacionários, a estratégia de investimentos requer cautela e diversificação. De acordo com Daronco, o Brasil, como exportador líquido, fortalece sua balança comercial, mas companhias que dependem de derivados de petróleo como principal matéria-prima sofrem impactos negativos em suas margens.
Daronco observa que as grandes oportunidades nas ações de empresas petrolíferas já passaram. Segundo o analista, o principal perigo é apostar na manutenção de uma situação de alta que pode não se concretizar. “O investidor precisa compreender qual o efeito do aumento do preço do petróleo e também entender qual é o preço pago por essas companhias. Não adianta desembolsar um valor demasiado alto por uma petrolífera, já antecipando um brent de US$ 100. É necessário fazer cálculos,” afirma.
Para atravessar essa turbulência, a TAG Investimentos detalha em seu documento que tem concentrado a parcela de Renda Fixa em ativos atrelados ao IPCA, além de alternativas pré e pós-fixadas no Brasil, e títulos de dívida soberana no exterior.
No campo de crédito, a empresa divide a alocação entre ativos brasileiros High Grade e High Yield, títulos de crédito em regiões avançadas e países emergentes. Já em câmbio, a estratégia inclui o acompanhamento e perspectivas de apreciação/depreciação de pares diretos como a cesta global do Dólar (USD/DXY), além de moedas fortes e de proteção como o Euro (USD/EUR), o Real (BRL/USD) e o Ouro (Ouro/USD).
Na avaliação setorial, Bruno Cordeiro acrescenta que as áreas que mais se destacam nesse cenário são a de biocombustíveis e mobilidade elétrica, dado que valorizações súbitas no petróleo incentivam o uso de fontes alternativas e aceleram debates sobre a ampliação da composição de etanol na gasolina e de biodiesel no diesel.
Fonte: Bora investir

